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Surfonomia | Qual o valor de uma onda?

Surfonomia | Qual o valor de uma onda?

Você já ouviu falar no termo surfonomia, ou, surfonomics? Trata-se do estudo do valor econômico proporcionado pelos picos de surf. O uso de informações e dados do impacto econômico provocado pela existência de uma onda em determinada localidade é recente e surge como recurso viável para fazer frente aos argumentos financeiros que costumam ganhar a batalha sobre a preservação ambiental.

Nesse episódio do Surf de Mesa, Junior Faria, Carol Bridi e Rapha Tognini contextualizam o surgimento desse conceito, contam o que está envolvido no assunto e como ele pode fazer a diferença na vida prática das comunidades costeiras e dos surfistas. A onda, afinal, é um recurso natural renovável. E se o que faltava era atribuir a ela seu valor financeiro para convencer de uma vez por todas o quanto se ganha em preservá-las, a surfonomia proporciona ao surf um novo status no debate social.

Se você ainda tinha alguma dúvida de que o surf vai bem além do estereótipo que carrega, dá o play aqui e adiciona mais esse argumento no seu quiver.

O conceito

A surfonomia compreende a metodologia e realização de estudos de avaliação econômica sobre o impacto da presença de determinada onda para a comunidade que a circunda, em maior ou menor raio de alcance. Trata-se, portanto, de quantificar as contribuições do surf para as economias. Até agora estas contribuições estão sendo estudadas nas dimensões locais e regionais. Com sua evolução, em algumas décadas talvez seja possível chegar à quantificação exata da contribuição do surf, por exemplo, nos PIBs nacionais e mundial.

Mas você pode estar se perguntando em que grau é benéfico ao próprio surf atribuir a ele um valor econômico. E a resposta é simples.

São dados relevantes na argumentação para proteção das ondas e dos recursos costeiros frente aos tomadores de decisão.

Um exemplo prático? Quantas vezes você viu ou ouviu falar em manifestações de comunidades locais e de surfistas contra obras e empreendimentos que ameaçavam as condições ideais de picos de surf? E, com o passar dos anos, quantas vezes você soube que estas manifestações conseguiram de fato segurar a força do argumento financeiro convencendo as comunidades de que a intervenção proporcionaria uma melhoria da economia local?

Foi em uma dessas situações que o surfista Chad Nelsen procurou o economista Linwood Pendleton para atribuir valor à onda que estava sendo ameaçada pelo interesse imobiliário de incorporadoras, que planejavam a construção de três arranha-céus em Rincon, Porto Rico. A construção ameaçava enterrar um recife responsável pelo pico de surf. Sem o recife, não haveria surf. E sem o turismo de surf, a defasagem financeira para a comunidade seria de milhões de dólares anuais. Esse foi o argumento capaz de convencer a prefeitura local a preservar a área que abrigava o pico descoberto por surfistas na década de 60.

Recurso natural

O surf é um recurso costeiro não extrativo. Uma onda é um recurso totalmente renovável, e a contribuição econômica que ela proporciona é fundamental para compreender a dinâmica das economias costeiras. O que estava acontecendo em Rincon em 2002 é o ciclo que se repete na maioria dos picos de surf. Na busca por ondas, sufistas descobrem picos intocados. A fama se espalha e turistas são atraídos. De olho na oportunidade, em seguida vêm os investidores com empreendimentos capazes de alterar o fluxo natural das ondas. A qualidade do pico se altera, o surfista perde sua onda e a região perde o fluxo financeiro proporcionado pela economia do surf.

Os estudos de avaliação econômica para picos específicos e comunidades costeiras utiliza metodologias da economia de recursos naturais. Com métodos como o de custo-viagem, é possível obter dados sobre os gastos diretos dos surfistas, tanto locais quanto visitantes. Os dados gerados são informações concretas que podem ser usadas como base de apoio para a formulação de políticas de proteção ambiental.

Reservas Mundiais de Surf

Depois do sucesso do argumento em Rincon, Nelsen, hoje CEO da Surfrider Foundation, completou um doutorado em ciências ambientais na Universidade da Califórnia, onde estudou economia do surf. Em 2011, relatório desenvolvido por ele estimou que cerca de 3,3 milhões de pessoas surfam nos Estados Unidos, em média, 108 vezes por ano, e dirigem uma média de dez quilômetros por surf, contribuindo com pelo menos US$ 2 bilhões para a economia norte-americana anualmente. A organização Save The Waves também percebeu que este era o caminho. Desde então, a entidade que criou o programa de Reservas Mundiais de Surf tem utilizado os estudos de surfonomia para tentar reverter a repetição contínua do ciclo citado acima.

A atribuição tangível do valor social e econômico da conservação dos litorais e das ondas, historicamente subestimado pela classe política e empresarial, tem se espalhado pelo mundo.

A Save The Waves tem feito parceria com instituições locais para gerar os estudos de surfonomia em diferentes praias, algumas delas consideradas reservas mundiais de surf. Atualmente existem 12 reservas no mundo, espalhadas entre Austrália, Estado Unidos, Portugal, Peru, Chile, Costa Rica, Porto Rico, México e Brasil.

Mas os estudos de surfonomia são independentes do programa. Atualmente, existem oito estudos de surfonomia disponíveis no site da Save The Waves para consulta, realizados entre 2008 e 2020 em picos localizados na Espanha, Estado Unidos, Indonésia, Chile, Peru, México e Brasil.

Falando em dólares

No Brasil, a Guarda do Embaú foi reconhecida pela entidade como reserva mundial de surf em 2016. Em 2018, os professores Marcos Abilio Bosquetti (da Universidade Federal de Santa Catarina) e Marcos Antônio de Souza (da Faculdade Municipal de Palhoça) desenvolveram um estudo de surfonomia para entender o impacto econômico das ondas da Guarda na economia da comunidade local.

Divulgado em 2020, o estudo mostrou que, durante a temporada de verão de 2018, surfistas e seus acompanhantes representaram 44% do total de turistas que visitaram a vila e foram responsáveis por 77% da contribuição do turismo para a economia local. Com gasto médio diário estimado em R$ 195, o surf atraiu 3.856 turistas surfistas para a Guarda naquele verão, contribuindo diretamente com R$ 13,5 milhões para a economia local. “Um valor bastante significativo para uma pequena vila de 800 habitantes no contexto socioeconômico brasileiro”, conclui o estudo. Como principais fatores que impactam negativamente a decisão de retornar à Guarda, o estudo aponta a poluição das águas, o lixo e o esgoto.

Relatório de 2010 mostrou que Mavericks, na Califórnia, vale 23,9 milhões dólares anualmente. Mundaka, no litoral do Norte da Espanha, cerca de US$ 4,5 milhões para a economia local a cada ano, de acordo com estudo de 2007. “Você tem que falar em dólares, é uma linguagem que o governo fala”, disse Henry Will, fundador Save The Waves, à reportagem publicada do Washington Post.

Programa Brasileiro de Reservas de Surf

O reconhecimento de reservas mundiais de surf pela Save The Waves acontece uma vez ao ano. Para movimentar a cena nacional e provocar iniciativas locais, surgiu o Programa Brasileiro de Reservas de Surf, iniciativa dos institutos Aprender Ecologia e Ecosurf. 

No site da iniciativa, explicam que “a escolha e validação de um local como Reserva de Surf proporciona um status diferenciado de proteção por ter gestão local e integrada e maior visibilidade pública, mesmo sem ser reconhecida por lei. A Reserva de Surf amplia o poder político da comunidade organizada.” Para conhecer mais e saber qual o caminho para tentar transformar o seu pico em reserva de surf, mais informações e os contatos estão disponíveis no site da iniciativa.

 

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