Tipo mídia de surf, só que mais legal

Érica Prado e o movimento Surfistas Negras

Érica Prado e o movimento Surfistas Negras

Você já percebeu que a quantidade de mulheres negras que você vê quebrando nas ondas não é proporcional à quantidade de mulheres negras que você vê no ranking da WSL ou numa surf trip descompromissada? Se não percebeu, provavelmente é porque não é negra e não sentiu falta de se ver representada.

Esse episódio do VA surfar GINA é um dos mais esperados por mim porque finalmente consegui entrevistar a Érica Prado, jornalista de surf e ex-surfista profissional. Finalmente não por falta de vontade. Nem minha, Nem da Érica. Mas porque tentamos marcar há mais de um ano. Nos encontramos algumas vezes, sempre a trabalho e com pouco tempo para gravar essa conversa. Na minha opinião, uma das mais necessárias no ambiente conservador que é o surf.

“Ah! Blablabla conservador…” Se alguém ainda acha que isso é conversinha, pode gastar o português porque, contra a realidade, não há argumento. O racismo estrutural de uma sociedade que achou (e acha até hoje) natural não indenizar as vítimas da escravidão achata as oportunidades de igual desenvolvimento entre negros e brancos. Quando juntamos à equação o gênero e as distâncias de um país tão desigual quanto o Brasil, só não percebe quem não quer. Mulheres negras e nordestinas partem de muitos degraus abaixo nessa escadinha de privilégios que é a vida. Muitos degraus abaixo do que a maioria de quem consegue correr atrás do surf profissional com condições suficientes de segurar os perrengues até atingir todo seu potencial e ser reconhecido.

Por isso, a Érica criou o movimento Surfistas Negras. Além de repórter do canal Woohoo, ela também tem no currículo o título de campeã baiana de surf profissional. Nessa conversa, ela traz tanta razão, que eu só posso agradecer pelo privilégio de poder ouvir. Se eu fosse você, faria o mesmo:

O início em Itacaré

Érica Prado começou a surfar com 13 anos em Itacaré, Sul da Bahia, por influência dos amigos e do irmão mais velho. “Foi uma coisa orgânica. Tive a sorte e o privilégio de ter crescido em uma cidade praiana que respira surf. Essa oportunidade não é dada para todas as pessoas, então tem muita gente que gostaria de surfar e que nunca ousa experimentar ou não tem grana pra bancar. Tem toda uma atmosfera que faz do surf um esporte quase exclusivo para quem têm mais oportunidade financeira ou de estar num lugar de praia”, aponta.

Acompanhou de perto eventos como SuperSurf, etapas do CT e do QS feminino, até que se encantou com tudo aquilo e decidiu que queria viver do surf. Começou a competir quase por acaso, mas acabou levando a sério e evoluindo. Foi campeã baiana em 2006 em um circuito estadual já maduro e bastante disputado. Aos 16 anos, com o título estadual, o objetivo era ser campeã brasileira e entrar na elite do surf mundial. Na época do baiano, ela já competia os brasileiros amadores.

Fez parte da equipe baiana durante muitos anos e achou incrível poder trabalhar viajando o Brasil inteiro, ainda que os perrengues não fossem poucos pela falta de patrocínio. Da Bahia ao Paraná em uma viagem de ônibus que durou três dias, dormindo na estrada, trocando de ônibus quando ele quebrava, é uma das memórias dessa época, que ela define como fase de autoconhecimento, de explorar outros lugares e conhecer pessoas.

A mudança para o Rio

Seguindo o sonho, se mudou para o Rio de Janeiro em 2007 para ficar mais próxima das competições nacionais e fazer faculdade de jornalismo. Acabou ficando um ano com dedicação exclusiva aos campeonatos, quando eliminou surfistas da elite do surf nacional e decidiu que era hora de se profissionalizar. Fez bons resultados, mas acabou batendo na trave e ficou fora do SuperSurf por uma vaga. “Foi um baque porque tinha muita autocobrança. Eu me boicotava muito nas competições. Surfava bem no freesurf, mas tinha bateria que já entrava perdida”, lembra.  

Érica exemplifica com uma bateria que correu com Andrea Lopes, Marina Werneck e Tita Tavares no Arpoador. Na época, ela e Marina treinavam juntas em um estúdio de pilates e tudo que queriam era passar juntas por aquela bateria. “Mas eu não acreditava que fosse possível porque achava que a Tita e a Andrea surfavam muito. E pensei: ´vou batalhar pra ficar em segundo porque a Tita vai ganhar´. O mar tava um metrão, correnteza e tal. Fiquei com o pensamento de passar em segundo lugar, não me soltei na bateria, entrei perdida”, define.

No fim, Andrea e Marina passaram. Érica ficou em terceiro e Tita em quarto. “Comecei a entender essa lógica do emocional. Você não pode subestimar nenhuma atleta, pode ser a última do ranking. E você não pode entrar numa bateria achando que você já perdeu pra determinada surfista só porque você admira ela. Se você acha que vai perder, você nem compete”, afirma.

Circuito brasileiro

Entrou na elite do surf brasileiro em 2009, quando entrou como alternate. Naquele ano, Érica tinha ficado fora por uma vaga de novo, mas uma vaga abriu quando Monik Santos soube que ficaria seis meses sem surfar em função de uma operação no ombro.

“Foi legal, mas eu não tinha muito suporte emocional. Eu viajava, perdia muito, tinha essa preocupação de ganhar o dinheiro pra conseguir ir no evento seguinte. Hoje vejo de outra forma. Eu era muito inexperiente pra competição. Pra você ser uma boa competidora, você tem que ser forte emocionalmente porque bateria é quase uma loteria. Tem que estar bem preparado fisicamente e tem que surfar bem, mas naqueles 20 ou 30 minutos, vai passar a bateria quem fizer as duas melhores ondas. Então você pode cair numa bateria com a Stephanie Gilmore, ela boiar e você pegar duas ondas medianas e passar. Assim como eu fiquei mais bem colocada do que a Tita Tavares numa bateria”, descreve.

Jornalismo no Woohoo

Quando mudou para o Rio, Érica já tinha participado de algumas etapas do QS em Itacaré, onde conheceu Lorena Montenegro, então jornalista do Woohoo. Acabaram mantendo contato até que, durante o último ano de jornalismo, Lorena avisou que o Woohoo estava com vaga para estágio. Já na entrevista, o jornalista Bruno Bocayuva adorou a ideia de ter na equipe uma estudante de jornalismo que também era competidora profissional. Um ano depois, Érica foi efetivada e passou seis anos fazendo reportagens atrás da câmera.

Nos últimos quatro anos, passou para a frente das câmeras nas reportagens e apresentação de alguns programas. “Enriqueceu muito meu conhecimento como surfista”, afirma. Se até então Érica tinha a visão de competidora, a partir daquele momento passou a conhecer a história do surf brasileiro. Além de todo o arquivo do Woohoo, ter contato direto com Bruno e com o criador do canal, Ricardo Bocão, foi fundamental. “Eles são verdadeiras enciclopédias do surf, então eu bebi direto na fonte. Sou uma sortuda de ter trabalhado e convivido com eles durante tanto tempo”, comemora.

Recentemente, o canal mudou o enfoque do surf para as artes marciais, e Érica tem visto a mudança como uma boa experiência fora da bolha dos esportes radicais. “Estou conhecendo outro lado do jornalismo, outra galera, e está sendo muito produtivo e gratificante trabalhar nessa área também, conhecer outro caminho”, considera. 

O outro lado

Érica reconhece que o jornalismo entrou na história como oportunidade mais viável de se sustentar no surf. “Quando consegui o estágio, o surf não estava pagando as minhas contas”, diz. Começou a viajar pelo Woohoo para coberturas jornalísticas e chegou a cobrir um evento do qual tinha sido eliminada na triagem. Percebeu que, como surfista, ia para os campeonatos sempre no perrengue, na pousada mais barata, tendo que escolher entre o almoço ou a janta porque não tinha dinheiro para as duas refeições.

Como jornalista, viu o jogo virar. Além do respaldo da empresa, era comum que o campeonato bancasse hospedagem para imprensa num dos melhores hotéis. “Como surfista eu me ferrava e como jornalista eu tinha o privilégio de ficar na beira da praia com tudo pago, recebendo informações privilegiadas sobre o campeonato. Comecei a ver que era mais jogo ser a jornalista de surf e não a surfista”, diz.

A transição acabou sendo natural. Érica parou de competir quando não tinha mais tempo para se dedicar aos treinos. Quando percebeu, já era mais conhecida como a repórter do Woohoo do que como surfista. “Surf competição foi uma fase na minha vida. Jornalismo está sendo uma outra, e de vez em quando ainda participo de eventos como convidada porque gosto do friozinho na barriga”, admite.

Surfistas Negras

No início da vida de competidora, Érica diz que não se ligava muito em questões raciais. “Achava que não ter patrocínio era falta de sorte”, conta. Depois de ser campeã baiana, se profissionalizar, passar quatro anos tentando viver do surf profissionalmente, se mudar para o Rio de Janeiro para competir e iniciar uma faculdade, ela começou a perceber que podia não ser exatamente falta de sorte. “Naquele período, as competições de surf aconteciam mais nas regiões Sudeste e Sul. As pessoas queriam um padrão para patrocinar”, observa.

Colecionadora de revistas de surf, começou a reparar que, na capa da Fluir Girls, na maioria das vezes estava uma modelo que por acaso experimentou o surf numa viagem de férias, ou um homem modelo estampando a revista de surf feminino, ou as surfistas que se enquadravam no padrão modelo/surfista. Sua visão é de que as marcas, naturalmente, querem visibilidade. A mídia, por sua vez, dava visibilidade somente para determinado padrão de surfista. “Quem vai ter patrocínio? As surfistas que estão na mídia. É um problema estrutural”, resume. Com o passar do anos, passou a olhar de outra forma para sua carreira competitiva e a falta de patrocínio e oportunidades.

Poxa, infelizmente a indústria do surf é racista. E eu demorei anos pra perceber.”

Até que, em 2015, percebeu também o poder dos movimentos negros no surf.

A influência do Brown Girls Surf

Quase dez anos depois de ser campeã baiana de surf, Érica fez sua primeira viagem internacional para surfar. Foi para a Califórnia, onde acompanhou uma das principais etapas do calendário da WSL, em Trestles. Mas foi em Oakland, onde conheceu o movimento Brown Girls Surf, que viveu uma transformação.

Ficou hospedada na casa da Mira Manickam-Shirley, idealizadora do movimento, e foi convidada para participar de uma ação. Em uma clínica de aula de surf para meninas negras, indianas e muçulmanas, Érica conheceu meninas que sequer conheciam o mar. E foi ali que percebeu: “O surf, na essência, é muito maior do que apenas um campeonato, que é o que a mídia vende. É um esporte que transforma vidas de verdade, que quebra barreiras”, define.

Na volta ao Brasil, sabia que algo precisava ser feito por aqui. “Houve um boom de movimentos de surf feminino, e a maioria são brancos. Fazem viagens, fazem clínica, e eu acho maravilhoso esse encontro, essa conexão. As mulheres estão se fortalecendo cada vez mais, só que ninguém atenta para o fato de não ter uma mulher negra naquele grupo. Uma busca no Google sobre surf trips femininas no Brasil ou de programas de surf femininos, ou nas revistas de surf feminino, mostra que é tudo quase exclusivamente branco”, aponta. Se entre quem está nas posições de decisão não é comum essa preocupação, para quem está na base da pirâmide, o impacto é diretamente sentido. “Se você é uma mulher negra, ou uma criança negra e você não se vê naquele lugar e não se identifica, pra que você vai começar a surfar?”, questiona.

O movimento no Brasil

Foram alguns anos reunindo coragem até que, em 2019, quando viu a surfista Yanca Costa passando pela mesma situação que ela vivia uma década atrás, resolveu criar o perfil @sufistasnegras no Instagram. Yanca, surfista cearence radicada no Rio de Janeiro, tinha vencido a primeira etapa do circuito brasileiro profissional em Ubatuba, mas, sem condições financeiras, não conseguiu competir a segunda etapa, que aconteceu em Itacaré. “É uma cidade maravilhosa, mas é caro pra chegar. É muito surreal a líder do circuito não disputar a segunda etapa porque não tem patrocínio”, afirma.

“Era um momento de retorno dos eventos femininos. O Brasil ficou anos sem um circuito feminino, e eu pensei: preciso fazer alguma coisa pra mostrar essas meninas. Eu me vejo na Yanca e outras meninas devem se identificar. Os ciclos vão se repetindo, então vou fazer alguma coisa pra dar visibilidade para meninas negras. Decidi criar um perfil no Instagram porque é prático, fácil e gratuito”, explica.

No início, ela organizou informações em uma planilha sobre o que cada uma pretendia competir e quais apoios tinham. “Descobri que 99% não tinha apoio financeiro. Uma ou outra tinha apoio de prancha ou alguma outra coisa. Quando marcas entraram em contato comigo através do Surfistas Negras, eu fiz a ponte. Passei o contato para algumas meninas tentarem organizar algo de patrocínio”, conta.

Encontro de surfistas negras e nordestinas

Recebeu mensagens de gente falando que agora se identificavam, viam que eram capazes, que podiam experimentar o surf. “É uma potência e mudou minha vida também porque conheci várias meninas negras do Brasil e do mundo inteiro. O meu olhar era muito limitado pra bolha de competição, mas existem muitas meninas que pegam onda, e existem muitos projetos”, destaca.

Em novembro de 2019, Érica realizou um encontro nacional de surfistas negras e nordestinas no Rio de Janeiro. “Foi uma manhã mágica de muita troca. E na roda de conversa, vi que as meninas tinham necessidade de falar. Elas gostaram de ouvir, mas elas também tinham muito pra falar, muita experiência pra compartilhar”, diz. Quando percebeu que reuniu várias gerações do surf feminino brasileiro e que tudo foi feito sem patrocínio mas com muita gente envolvida querendo fazer acontecer na boa vontade, decidiu organizar eventos mensais, e pensou em expandir a realização para outros Estados. Esperou o carnaval para anunciar o calendário de novos eventos, mas os planos foram adiados pela chegada do coronavírus. Os eventos ficaram para 2021, mas ela pensa em trazer para o ambiente virtual as rodas de conversa ainda esse ano.

Nos rankings

Quanto ao acesso das mulheres negras à elite das competições, Érica considera que as empresas que lucram com a indústria do surf precisam atentar para as decisões de patrocínio.

“As empresas estão no topo, elas podem investir em atletas, mas há um movimento de patrocinar quem já está no topo. A prancha do Gabriel Medina não tem mais espaço pra colar adesivo. É inegável que ele é um dos maiores surfistas de todos os tempos. Mas existem outras pessoas que podem vir a conseguir um título mundial. E essas pessoas não surgem do nada. É preciso ter suporte, oportunidade de viajar, competir eventos menores do QS para melhorar a posição no ranking”, resume.

No Brasil, quando muito, acontece um ou outro evento feminino do QS, que é o circuito classificatório da WSL. Ainda assim, são eventos de menor pontuação. Para atingir a faixa de classificação para o CT, o surfista precisa competir nos menores para acumular pontuação e ir acessando os maiores. É o que se chama de seed. Assim, um surfista começa no QS competindo nos de 1.000, 1.500, 3.000 pontos para acumular pontuação e acessar os de 6.000 e chegar aos maiores, de 10.000 pontos. 

“A pontuação exigida para um surfista entrar pra elite do surf mundial até 2019 era de mais ou menos 20 mil pontos. Então quem tinha seed pra competir as etapas de 10 mil pontos, às vezes nem compete o circuito inteiro e entra no CT. E aquele surfista brasileiro, nordestino, que só compete as etapas do QS no Brasil nunca vão estar entre os primeiros”, explica. “Então, legal, a brasileira ganha uma etapa do QS no Brasil, mas isso não faz nem cócegas no ranking. As brasileiras precisam participar dos eventos maiores, precisam viajar”, completa.

A história não deixa mentir

“Quando eu falo que é o racismo, as pessoas falam que é mimimi, que racismo não existe. Mas não vemos mulheres negras protagonizando programas no canal especializado. E quando tem, é uma participação rápida. Quem ganha dinheiro nesses programas não são as mulheres negras, não são os homens negros. É toda uma estrutura, é todo um sistema que precisa mudar. Mas quem está na posição de privilégio, não quer sair dela. E falam, ´ah, não posso opinar, não posso mudar isso´. Olha o nosso histórico: enquanto os negros eram proibidos de frequentar uma faculdade, os europeus falidos chegaram no Brasil, ganharam terra, trabalho e bolsa na faculdade. E os negros libertos não ganharam nada. Ganharam uma lei que proibia frequentar determinados lugares”, destaca. 

Não é por acaso que a retomada dos circuitos femininos no Brasil não necessariamente gere igual impacto para todas as mulheres.

Como não basta ter o evento, mas também condições de acesso aos eventos, Érica leva em consideração as questões de concentração de etapas nas regiões Sudeste e Sul. “O nordeste é um celeiro de talentos incríveis. Mas é muito caro para uma garota sair do Ceará para competir no Rio de Janeiro ou até no sul da Bahia. Por isso, se você dá uma olhada no ranking brasileiro dos últimos dois anos, quem está dominando as 20 primeiras colocações são meninas do Sudeste e do Sul, ou meninas do Nordeste que moram no Sudeste”, analisa. “Quando você não faz um campeonato em diversos Estados que seja acessível para todas, vai ficar restrito aos novos talentos de determinadas regiões”.

 

DICA: Essa semana, Érica também lança um podcast junto com outras quatro surfistas. Na Praia Delas tem Érica, Yanca Costa, Nayla Patrizzi e Potira Rolan conversando sobre surf feminino toda sexta-feira!

 

 

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Quer ouvir mais podcasts de surf? Conheça o Surf de Mesa, podcast mais sincerão do universo surfístico, apresentado por Carolina Bridi, Junior Faria e Raphael Tognini.

Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.