Tipo mídia de surf, só que mais legal

Está no ar o primeiro podcast de surf feminino

Está no ar o primeiro podcast de surf feminino

Se você – surfista-garota, surfista-mulher, surfista sem gênero, surfista apenas, surfista de tudo, simplesmente surfista – andava triste, macambúzia por aí porque não existia nenhum podcast de surf pra chamar de seu, dê adeus à melancolia. VA surfar GINA, o primeiro podcast sobre o surf feito por mulheres, está no ar.

A cada episódio, a jornalista Carolina Bridi vai conversar com mulheres que são referência e que fazem o surf acontecer, seja na frente ou atrás das câmeras, no mar ou nas mesas de tomada de decisões. De surfistas a fotógrafas, videomakers, shapers, empreendedoras, executivas de marcas, o podcast vai mostrar a importância de ter mulheres na linha de frente e nos bastidores de tudo que envolve o universo do surf. Sabe como? Tratando o famigerado ~ surf feminino ~ como o que ele é de fato: SURF… de qualidade, performance, coração e, principalmente, cérebro.

Os episódios saem toda terça. Mas, pra começar, dá o play aqui:

O termo surf feminino

Como todas nós sabemos e todos os outros deveriam saber, o surf não tem gênero. Como também sabemos, mas talvez pouco tenhamos observado, não ouvimos por aí o termo surf masculino. Peraí, que vale repetir. É um fato histórico. Nunca, na história da humanidade, até o ano de 2020, seja em meios de comunicação em massa ou até em rodinhas de conversa, havia se cunhado o termo surf masculino. Quer dizer, então, que o surf, chamado apenas assim – SURF, em toda a plenitude do termo, seria, por si só, de berço, um ser varão?

Aquele, o descomunal, o grandioso, aquele a que todos se referem pura e simplesmente como surf, seria, por natureza, masculino? É certo que não, e eu posso provar (logo abaixo). Vamos então dar nome ao que tem nome. Se precisamos chamar o surf feito por mulheres de surf feminino, a partir de agora vamos combinar de chamar o surf feito por homens de surf masculino. 

Sim, porque o surf, em sua origem, é gender free, é não binário, é queer, é hermafrodita, é assexual, é bissexual, é pansexual, é o que você quiser, só não é exclusivamente masculino.

Quando tudo começou

Nas ilhas polinésias dos idos de 1600, quando se teve os primeiros registros de surf, estavam homens e mulheres de todas as idades lado a lado em cima de seus pedaços de pau deslizando pelados sobre as ondas. Os mitos e lendas mais antigos do surf, inclusive, são femininos. Como a princesa Kelea de Maui, uma das melhores surfistas do reino havaiano, ou a semideusa Mamala (sem piadas), que era metade mulher e metade tubarão, ou a prancha mais antiga, que vem da caverna de uma princesa que viveu no século 17.

Se você está se perguntando o que aconteceu para regredirmos tanto ao longo do tempo em questões de gênero no surf, a história é longa. Mas a distorção começou a acontecer quando a galerinha puritana branca e cristã chegou nas ilhas e se ofendeu com toda aquela exposição de pele durante os concursos de surf. Segundo reportagem do History Channel, parte deles até virava as costas e saía se debulhando em lágrimas.

O fato é que tem muita história de mulher lá na origem do surf. Só que como a história do surf foi predominantemente contada por escritores modernos que focaram nos homens que contribuíram para o reavivamento do surf, o que a gente conhece é uma versão de recorte masculino. E neste recorte, naturalmente, tudo leva a crer que eles são os donos do grande surf, sobrando para as mulheres aquela “várzea” na margem da história que acharam por bem classificar por gênero. Surf feminino.

Eu surfo mal

É por esse motivo bem óbvio que eu preciso dizer que discordo de mim mesma quando escolhi o termo surf feminino no começo desse texto.  Assim, afirmo, sem sombra de dúvidas, que o termo surf feminino é, portanto, uma distorção que foi se criando ao longo da história basicamente como um reflexo da predominância masculina nos negócios, nas letras e no comandos.

Discordar descaradamente de mim mesma, aliás, diz muito sobre o segundo tópico que eu preciso explicar para te convencer que VA surfar GINA era tudo que faltava na sua vida surfística. E este segundo tópico sou eu mesma. Muito provavelmente você nunca ou pouco ouviu falar de mim. Se já ouviu, parabéns! (Por favor, conte nos comentários para ajudar minha combalida auto-estima.) E pra quem não ouviu, ou até já ouviu mas não deu bola, vou tentar justificar porque achei que o que eu penso e digo é útil o bastante para virar podcast.

Eu, assim como a maioria dos surfistas civis que habitam nesse mundo, surfo mal. Eu, aliás, não sei nem se posso chamar de surf o que eu faço dentro da água. Considerando fatores recreativos,  posso dizer que sim. Mas tecnicamente, com certeza deixo dúvidas. Se eu surfo mal, por que, então, alguém poderia querer me ouvir? Porque surf não se faz só dentro da água. Aliás, como bem vimos aí em cima, o surf só é predominantemente masculino hoje em dia porque a história foi contada por homens, e com isso, os recursos que fizeram o surf se desenvolver como negócio, foram também destinados aos homens.

É por isso que a história também precisa ser contada pelo ponto de vista feminino. E é a isso que se refere esse podcast.

Mas, por que eu?

Primeiro, óbvio, porque eu quero. Tendo isso em mente, você pode ouvir e tirar suas próprias conclusões. Para o bem ou para o mal.

Nesse episódio preliminar, eu não só apresento minhas caraminholas, como converso com meus próprios botões para contar minhas convicções quando o assunto é ~ surf feminino ~. 

E não se assustem. Minha voz vai predominar só nesse primeiro episódio porque nos próximos eu vou estar sempre muito bem acompanhada de alguma mulher incrível que vai dividir o microfone para contar suas histórias, como o surf faz parte delas e elas fazem parte do surf. Tudo isso pra gente se inspirar e ficar cada dia mais consciente de que o nosso espaço não é na margem da história, mas sim no meio, na frente, em cima, em baixo, no lado, do outro lado, em todos os cantos do graaaande surf… aquele, que não se denomina por gênero.

Siga o feed no seu tocador de podcast preferido para ouvir os episódios sempre em primeira mão! 

VA surfar GINA também está disponível nas plataformas Apple Podcasts, Deezer, Spreaker e YouTube.

Quer ouvir mais podcasts de surf? Conheça o Surf de Mesa, podcast mais sincerão do universo surfístico; e o Surf Zine, com as principais notícias do surf na semana. Os dois são apresentados por Carolina Bridi, Junior Faria e Raphael Tognini.

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Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.