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Como evoluir no surf | É mesmo preciso?

Como evoluir no surf | É mesmo preciso?

Você também tem sido atingido por uma avalanche de anúncios comerciais de recursos para evoluir seu surf? De surf coachs, treinos online, simuladores, tecnologias mágicas até benção do Medina, tem se visto de tudo em nome de melhorar a performance no surf. Mas, será que isso tudo é mesmo preciso ou estamos caminhando para a instituição definitiva do surf recreação de alto rendimento?

Desafiados pelo ouvinte Marcelo Lopes, Junior Faria, Carolina BridiRaphael Tognini tentam responder a seguinte pergunta: Evoluir é preciso?

De certa forma, a pressão interna ou externa para surfar cada vez melhor sempre aparece nos episódios do Surf de Mesa. Isso acontece, provavelmente, porque a necessidade evolutiva talvez seja comportamento inerente ao ser humano. Se não há como dissociar o corpo físico da tendência a querer ir sempre um passo à frente, qual seria o limite entre o prazer e a dor envolvidos na evolução de algo que não tem a ver com nossa sobrevivência?

Somos grandes defensores de que a pressão por performance pode dificultar a relação do surfista com o surf, causando frustração que pode levar a uma condição nada saudável com o que, em tese, deveria ser um grande prazer. Mas trazer a pergunta de uma forma totalmente direta, como fez o Marcelo, fez nosso trio de vozes ir mais a fundo no assunto.

Necessidade humana

Naturalmente, quem começa a surfar se espelha em uma imagem do surf. Certamente, não é exatamente essa imagem desejada que o iniciante vai reproduzir na realidade. Primeiro a espuma, depois passar a arrebentação, depois dropar uma onda, depois aprimorar movimentos. É tão inevitável quanto um bebê que começa a engatinhar e de repente se vê colocando um pé na frente do outro para chegar do ponto A ao ponto B.

Se evoluir não fosse uma necessidade humana, talvez sequer começaríamos a caminhar.

Isolando o corpo físico, que talvez seja levado pela natureza humana a sempre tentar o próximo passo, o surf se tornaria, então, uma experiência puramente sensorial, desprovida de qualquer expectativa? Esta não parece ser uma possibilidade completamente realista. Se você não está morto, há o corpo. E ele vai querer seguir seu caminho. O corpo humano depende de movimento para continuar funcionando. E, nesse contexto, qualquer modalidade esportiva traz a premissa muito forte de melhorar. Por que evoluir no surf? Porque talvez essa seja a premissa de todas as modalidades esportivas. Por que o esporte existe? Para atender a necessidade primitiva do combate, da sobrevivência, da força vinculada à evolução da espécie. Memória celular.

Evoluir no surf é preciso?

A partir do momento em que se assume essa pergunta, também se assume algo muito peculiar ao surf: o conceito de que não se trata apenas de um esporte, mas sim de um estilo de vida. Evoluir é uma necessidade essencial ao surf? Necessidade, levada ao pé da letra, talvez não seja. A necessidade vem do ser que o pratica, e não da atividade em si.

Na pré-história, o corpo humano precisava da força para sobreviver, lutar, caçar. E quando tinha o que precisava, era estratégico resguardar energia. Com o desenvolvimento da humanidade, surge o esporte, que talvez venha para sanar a necessidade humana de lutar por algo. Hoje em dia, lutar com animais selvagens, arriscando perder a vida por um simples jantar, foi substituído por uma rápida passada na padaria.

O esporte vem cumprir a necessidade instintiva e acaba transbordando para o supérfluo. Leia-se: provar que é melhor, ser o campeão ou o melhor no crowd do final de semana.

Dessa necessidade trazida na memória celular, se faz o uso comercial, naturalmente. É quando surge uma enormidade de produtos e serviços voltados à evolução, seja ela real ou imaginária. Exploração comercial das irracionalidades humanas é o que temos feito cada vez com mais naturalidade ao longo do desenvolvimento da economia moderna, baseada inevitavelmente na cultura do acúmulo.

Memória celular

É certo imaginar, portanto, que o esporte sacia necessidades ligadas a um período mais orgânico e primitivo da história humana. As próprias Olimpíadas surgiram disso. Esportes clássicos vieram do treinamento e demonstração do mais forte na reprodução de tarefas inspiradas na corrida pela sobrevivência. Barbara Saavedra, diretora do Wildlife Conservation Society Chile (WCS) defende que a busca das pessoas por atividades ao ar livre, em montanhas, no mar ou integradas em qualquer ambiente natural, suprem a necessidade que o ser humano sempre teve de se relacionar de forma muito próxima com o meio-ambiente.

A ideia de que ser humano e natureza são coisas distintas é muito recente, visto que a simbiose sempre foi orgânica ao longo de milênios. O pensamento de que nós somos uma coisa e a natureza é outra nos coloca em um período absolutamente recente da história do mundo.

Assim, ela vê os esportistas buscando suprir a necessidade humana básica de estar completamente integrado com a natureza. O que vem ao redor seriam justificativas inventadas para continuar tendo motivos para manter esse contato. Talvez isso explique porque é tão satisfatório pegar onda, escalar uma montanha, navegar, correr ou qualquer atividade ao ar livre.

Se no dia a dia a maioria das pessoas não precisa mais plantar, colher e caçar, o jeito foi inventar motivos para voltar a este lugar de pertencimento absoluto. E agora, a gente chama isso de ser surfista, montanhista, ciclista, etc.

Evoluir ou melhorar?

A Biologia define evolução como processo de transformação e adaptação dos seres vivos ao longo do tempo. Quando o termo passa a ser utilizado comercialmente como otimização de resultado, estamos falando de uma corruptela que tem causado confusão.

No sentido biológico, evoluir é se adaptar. No sentido comercial, evoluir é adicionar, otimizar.

Quando a pessoa se questiona se é realmente necessário continuar evoluindo tecnicamente para mostrar um surf melhor, está questionando o próprio sequestro do termo “evolução”. De repente, evoluir no surf no sentido de adaptar-se às condições e à sua própria condição, é um caminho muito melhor do que querer ser melhor.

Se você coloca para si mesmo este termo como pressão excessiva para melhorar, talvez “evoluir”, no uso incorreto do termo, não deve ser um objetivo. Mas se o esporte perde a graça porque você se encontra no mesmo patamar durante muito tempo, talvez melhorar seja necessário. Vale, contudo, se perguntar se a graça perdida diz respeito à imagem real ou à imagem ideal vendida comercialmente. Antes disso, questione-se o quanto sugestionado comercialmente você pode estar.

Curva evolutiva

Podem ocorrer, inclusive, as duas coisas ao mesmo tempo. Assim como, para algumas pessoas, jamais existe um ponto de satisfação. É neste momento que deve se considerar a curva evolutiva, nem sempre ascendente e de igual relação entre esforço e recompensa. No início da atividade a curva está numa ascendente muito forte. No começo, tudo é novidade, você melhora a cada dia. Com o passar do tempo, a curva passa a não ser tão ascendente na relação entre esforço e benefício. Ela passa a pender muito mais para o esforço do que para o benefício.

É exatamente nesse momento em que você talvez precise se questionar: Preciso evoluir? Ou melhor: Vale a pena evoluir?

Quando o esforço começa a ser maior para fazer o que se fazia antes, estamos falando também na evolução da longevidade humana. A relação com esse tipo de pensamento começa a surgir a partir do momento em que se passou a viver muitos anos além do período em que se está no auge da força física. E surge a necessidade de aceitar que, a partir de certo momento, chega-se a um platô, depois do qual, muito provavelmente, o destino é decair em performance em função da própria força física. Basta observar que, só ao chegar no outside, o surfista de 60 ou 70 anos já está se superando muito mais proporcionalmente do que o moleque que deu cinquenta aéreos rodando.

Evolução x satisfação

Diante disso tudo, talvez seja muito mais importante entender de onde você está tirando sua satisfação do que entender se precisa melhorar. Ainda que não seja isso o que o surf comercial vende. Sempre fomos bombardeados por anúncios para consumir produtos de surf descolados. Agora, a novidade é que estamos sendo bombardeados para consumir produtos que sugestionam a ser melhor, a atingir todo o potencial. 

Portanto, vale diferenciar seu objetivo.

Usar recursos de melhoria de performance visando aumentar o quanto você se satisfaz e se diverte não deve ser um problema.

Mas quando o combo “recreação de alto rendimento” vem acompanhado da pressão por ser o melhor, aí você pode estar não só minando seu próprio prazer de surfar mas também o de quem cruzar com você pelo caminho. Estamos falando da profissionalização do recreativo. E quando chega nesse ponto, “evoluir” não é preciso.

Dicas são sempre bem-vindas

O surfista recreativo que surfa há 15 anos de repente se vê estagnado. Para ele, receber dicas de quem consegue observá-lo tecnicamente pode ser um atalho muito bem-vindo, que vai gerar maravilhas. Só não é saudável quando o sujeito passa a achar que o único caminho é ter o técnico, o coach, o simulador de surf, o frequencímetro, o relógio que marca onda, o suplemento alimentar. Isso não vai trazer felicidade.

Criação do ambiente para a pessoa maximizar o prazer que o surfista extrai do surf é ótimo. O problema é quando isso se torna uma ideia fixa e com objetivo fora da realidade. Se você passa a querer surfar ou treinar ou se alimentar como um surfista profissional, significa que isso deixou de ser prazer e se tornou um trabalho.

Todo o aparato evolutivo para o surfista recreativo é maneiro se o colocar numa situação mais fácil com menos esforço.

Mas se fizer sofrer, não faz sentido. A qualidade ou não dos produtos ou serviços oferecidos, não se questiona. Mas sim o uso que se faz e a intenção que está sendo colocada.

 

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