Tipo mídia de surf, só que mais legal

Yanca Costa: “A gente também quer aplauso!”

Yanca Costa: “A gente também quer aplauso!”

Yanca Costa, atual campeã brasileira de surf, é a cearense mais carioca que eu conheço. Aos 14 anos foi ao Rio de Janeiro pela primeira vez e, na empolgação do Grom Search que levou naquele ano, se apaixonou pela cidade. Dali não queria mais sair, mas como não rolou na época, mudou de ideia e já não queria mais deixar o Nordeste quando, quase dois anos depois, o pai avisou que tinha comprado as passagens. Ela viajou chorando, mas não demorou para fazer novos amigos e ter ao seu lado a família inteira, que corajosamente migrou do Nordeste para o Sudeste em busca do sonho dos filhos surfistas.

É a essa mudança que Yanca atribui a evolução que a faz ser parte de um cenário que insiste em recortar o Brasil. Sua visão crítica sobre dois lados, adquirida a partir da própria experiência de vida nas duas regiões, carrega aquele frescorzinho de quem descobriu que pode tudo o que quer. Isso vem com a sinceridade das ideias na voz que encontrou seu ponto de equilíbrio na mistura de sotaques. E coisa mais brasileira que isso, eu desconheço.

Ouve aqui a Yanca, que, nas escolhas do que pensa, sente, diz e do que prefere deixar de lado, define muito bem a complexidade existencial do surf de competição em um país como o Brasil.

Ceará – Rio

Nos rankings brasileiros profissionais de 2019 e 2020 da CBS (Confederação Brasileira de Surf), um detalhe chama atenção. Yanca Costa aparece como representante do Rio de Janeiro em 2019, quando ficou em 4º lugar, e como representante do Ceará em 2020, quando conquistou o título de campeã brasileira. A confusão é daqueles atos falhos possivelmente não tão falhos assim. Explico:

Yanca nasceu no Ceará e começou a surfar aos 5 anos na praia de Icaraí, em Caucaia. O pai costumava levar ela e o irmão para o surf, e com 8 para 9 anos, os dois já estavam competindo e se destacando nos amadores da região. Em 2014, sua primeira vez no Rio de Janeiro, venceu o Rip Curl Grom Search no Recreio e disse para o pai que queria morar ali.

Àquela altura, ouviu que era loucura mudar para uma cidade onde não conheciam ninguém. Mas, um ano e meio depois, ele avisou: Comprei as passagens!

Ela mora no Rio desde os 16 anos, e desde 2018, ano em que também foi campeã carioca, passou a defender o Estado do Rio de Janeiro na disputa pelo título brasileiro profissional. Mas, aparentemente, a opção ainda não é totalmente compreendida ou aceita por todos. “Como eu estava morando aqui, não tinha sentido continuar representando o Ceará. Por isso, desde então estou representando o Rio. Em 2019 eu estava pelo Rio, 2020 também, mas eles insistem em colocar Ceará, sendo que não represento mais o Estado há 3 anos. Insistem em falar que eu sou do Ceará. Eu sou, mas represento o Rio. Toda etapa eu falo, e eles não mudam”, explica.

Campeã brasileira 2020

Yanca terminou 2019 desanimada e definiu que em 2020 pretendia ser campeã brasileira viajando e competindo o menos possível. Em fevereiro, quando estava na sua melhor forma física, viu a pandemia se aproximando e, com isso, as competições sendo canceladas. O treinador não deixou desanimar e os treinos voltaram. A ideia era estar pronta, caso alguma etapa fosse retomada. “Voltei tudo e pensei: se vier o Brasileiro, vou ser campeã. Quando vi que ia ter o campeonato, fiquei super animada e pensei: é agora!” Sabia que quem estivesse mais preparada mentalmente se daria bem e recebeu todo o apoio da equipe formada pelo treinador físico Gabriel Ferrão, pelo treinador de surf Leandrinho Bastos, pela psicóloga Camila Salutiano e pela fisioterapeuta Priscila Barcik. “São meus alicerces. As quatro pessoas que me deixam bem pra competir”.

Ela afirma que o título conquistado em 2020 não teria sido possível se não estivesse no Rio. Primeiro, porque atribui ao circuito carioca a chance de ter se tornado campeã estadual profissional e, com isso, ver seu nome impulsionado. Sabe que se não tivesse tomado essa decisão, tudo poderia ter sido diferente. Mudou-se para o Rio com o pai e o irmão. Só quatro meses depois, a mãe e a irmã completaram a mudança definitiva da família.

“(Meus pais) foram muito corajosos porque tinham uma base boa lá no Ceará, tudo mais fácil por ter a família ao redor. Eles acreditam na gente e mudaram totalmente a vida, foram muito corajosos e eu fico feliz por isso”, diz.  “As pessoas acham que você tem que ficar preso ao que nasceu. Eu respeito, aprendi a surfar no Ceará, me formei lá, mas moro no Rio agora, e ele me dá muito mais do que o Ceará. Tenho mais vantagens aqui”, considera.

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Vantagens no Rio

Na lista de vantagens, Yanca inclui ser campeã carioca e ter a oportunidade de correr a triagem para etapa de Saquarema do CT em 2019. “No Rio, fui campeã profissional, que é um título de peso no Brasil inteiro. No Ceará não tem um circuito tão forte quanto o Carioca Pro. As melhores atletas do Brasil estão aqui, e vejo que aqui elevei o nível muito mais rápido. Em quatro anos de Rio de Janeiro, pulei de 4º para 1º no Circuito Brasileiro. Se eu continuasse no Ceará, não sei se estaria disputando o título. O Rio me oferece muito mais oportunidades agora e eu defendo o Rio com o maior amor no meu coração porque amo aqui. Sou carioca de alma. Amo o Rio de Janeiro”, declara.

Quando chegou, deu de cara com as surfistas que via na TV e nas revistas. Chloé Calmon, Maya Gabeira, Claudinha Gonçalves, Marina Werneck. Conheceu essa galera e foi se sentindo parte dali. Havia mais acesso. Nas ondas, também considera o aprendizado. Antes, o medo predominava diante de um mar de um metro e meio. Agora, surfa tranquila.

É a maior vitória da minha vida conseguir entrar numa bateria com o mar grande. Pra mim, já valeu todo esforço que eu fiz e todo choro que eu chorei no aeroporto pra chegar aqui”.

Se ela acha que é mais bem percebida e recebida pelo público, pela mídia e pelas marcas por estar no Rio? Ela não acha. Tem certeza! “O Ceará, o Nordeste inteiro, é meio esquecido. A galera não olha muito para o Nordeste. Quem está aqui no Sul e no Sudeste tem a maior atenção. É visível até em seguidores de Instagram. Tem menina que manda aéreo lá no Nordeste e tem 2 mil seguidores. (No Rio) tem menina que só fica em pé na prancha e tem 50 mil seguidores. É uma loucura”, reclama.

“Conheceram a Ariane Gomes agora porque ela ganhou uma etapa do Brasileiro, mas ela surfa bem há séculos”, observa. “Se eu não tivesse vindo pro Rio, ninguém ia me conhecer. Tive que vir, sair da minha zona de conforto lá no Nordeste pra vir pro Sudeste, competir e ganhar um campeonato. Comecei a competir os brasileiros, ganhei um Pro Junior e isso já deu uma levantada no meu nome. Mas quando eu vim para o Rio, consolidou. Todo mundo me conhece porque eu moro aqui”, afirma.

Mídia e atenção

Em sua visão, as federações de surf do Nordeste têm se esforçando para realizar campeonatos por lá. Tanto que em 2020, duas das três etapas aconteceram na região – Bahia e Ceará. Isso é o inverso do que costumava acontecer antigamente, quando as etapas concentravam-se entre Rio, São Paulo e Santa Catarina. Ponto positivo, em sua visão, para os novos talentos que passam a ser mais percebidos.

Mas a atenção da mídia de surf, altamente concentrada no Rio, Yanca atribui ao que ela define como “galera com a cabeça mais aberta a conselhos”. Da experiência que tem de morar nos dois lugares, sua visão é de que no Rio a galera é mais solta. “O pai manda o filho pro Hawaii com dez anos e ele fica lá por três meses. No Nordeste, é mais difícil soltar o filho sozinho”, compara. E o surf demanda experiência.

O jeito mais “largado” do carioca, em sua opinião, o faz evoluir mais rápido, além, é claro, do empurrãozinho de um maior cenário de mídia.

A presença, por exemplo, do Canal OFF, significa, para ela, um propulsor não só para quem aparece na tela da TV. “Quem aparece lá aproveita e usa as mídias sociais. E a gente tem que acompanhar pra não ficar para trás na questão de patrocínio porque o patrocinador quer engajamento, seguidores”, observa. No Nordeste, o cenário de mídia é bem menos promissor em alcance nacional, mas sua opinião é de que há necessidade de maior impulso pessoal. “O tempo não vai esperar. Tem que fazer acontecer”, opina.

As oportunidades são menores, e ela avisa que se as marcas entenderam em algum momento que a galera não estava disposta a se jogar, o mundo agora é outro. “Se der a oportunidade, vão aproveitar. Eu moro aqui agora e tenho outra visão (de quando morava lá). Quando eu vim, minha cabeça abriu. Se você quer ser uma surfista brasileira, vai ter que treinar, fazer tudo certinho, viajar”, avisa.

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Perto de quem inspira

Desde os 11 anos, quando viu Coco Ho surfando em um filme, Yanca sabia que aquela era sua ídola pra vida inteira. Por isso, o dia em que conhece a havaiana foi um dos melhores de sua vida.  Em um dia de 2017, viu Coco junto com Leandrinho no Grumari e pensou: “Vou conhecer ela e esse vai ser meu treinador”. No ano seguinte, por intermédio da fisioterapeuta Pri Barcik, começou a treinar com ele. “Pensei: um já foi”. Mais um ano depois, em 2019, Yanca foi apresentada por ele à Coco na semana que tem guardada nas ideias como a semana dos sonhos.

A melhor semana da vida começou quando foi competir a triagem para o CT em Saquarema. Lá, conheceu Coco, ficaram juntas durante toda a semana, surfaram juntas todo dia, faziam tudo juntas. “Vi ela e parecia uma deusa. Não conseguia nem falar, só gaguejava. Mudou a minha vida ter ficado esses dias com ela porque ela é tudo que eu imaginava. Tem gente que você é muito fã e quando conhece, se decepciona. Com ela, não. Ela me ajudou muito e me ajuda até hoje com várias dicas”, conta.

Shaka Girls

Em 2020 também foi o ano em que Yanca movimentou as redes sociais. Há algum tempo tinha vontade de fazer um surf treino que acabava não saindo do papel. No começo de 2020, ela e Isabela Saldanha vinham trocando ideias sobre planos de viajar para o Hawaii no final do ano. Projeto vai, projeto vem, era preciso um nome e Yanca sugeriu: Shaka Girls. Nome aprovado, uns dez dias depois, já em quarentena, veio a ideia: “Vamos fazer um campeonato online.”

Isso acontece no final de março. Definiram as regras, obrigaram as amigas a competirem e no dia seguinte já começava o campeonato. Tudo na intenção de levar uma brincadeira para a galera manter a adrenalina de competir. No segundo dia surgiu marca oferecendo produto para premiação, no terceiro o shaper Xanadu ofereceu uma prancha, no quarto veio marca de biquini, e a brincadeira foi tomando proporção. Bateria com dois mil votos. Stories com cinco mil visualizações. E no final, o que era para ser escolha por voto popular, ganhou reforço de um time de juradas de peso. Sofia Mulanovich, Coco Ho, Silvana Lima, Melanie Giunta, Gilvanita Ferreira, Suelen Naraisa, Jacqueline Silva e Brigitte Mayer aceitaram o convite.

No fim, um milhão de impressões no Instagram do Shaka Girls e muitos talentos tendo visibilidade em uma época em que ninguém sabia o que esperar do futuro.

Em 2020, foram três eventos, sendo duas edições de pranchinha e uma edição de longboard. Em 2021, a ideia é levar do virtual para a praia. Em primeira mão, Yanca contou nesse episódio do podcast que Chloé se juntou a ela e Isabela, e um primeiro evento presencial do Shaka Girls deve acontecer em fevereiro no Rio. Depois de uma primeira edição para ver se tudo corre bem, a intenção é ampliar para praias pelo Brasil inteiro.

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Incentivo e aplausos

“As meninas que estavam competindo vinham me falar que o Instagram delas estava bombando, que tinham ganhado seguidores, recebido mensagem. Esse é o foco. Mostrar os talentos. E conseguimos fazer isso nas três edições. A galera deu uma aquecida no Instagram”, conta. A realidade é que o Shaka Girls mostrou que as mulheres querem competir e ver competição feminina. Sem estrutura, sem investimento, conseguiu-se muito público.

Yanca conta as tantas vezes em que já presenciou gente indo embora dos campeonatos, falando que não iam assistir o feminino porque as meninas não surfam nada.

Já subi em pódio com outras meninas e ninguém bateu palma e eu falei: ´Que é isso? Bateram palma pros meninos e não vão bater pra gente? Podem bater palma.´ Umas três pessoas bateram, e eu pensei: ´Essa galera tá maluca? Estamos no pódio. A gente fez por merecer estar aqui também. A gente quer aplauso.”

Lembrando que mulheres consomem mais que os homens, Yanca chama atenção para o quanto esse ainda é um mercado subestimado. “A galera ficou mais de cara ainda mais porque eram duas meninas. Eu com 20 e a Isabela com 17. Duas crianças fazendo um bagulho de gente grande, e fazendo direito.”

No fundo, ela diz que o que quer é  ajudar o surf feminino e deixar um legado para a nova geração, que é o de correr atrás pelo surf feminino. “Tá no campeonato e o mar tá ruim? Junta todas pra conversar, e fala que ninguém vai cair na pior hora do mar. Tudo que a gente faz agora é também pra nova geração. Espero que elas vejam isso e façam também pensando na geração depois delas, e que isso vá evoluindo até chegar ao ideal de um mundo igualitário”, afirma.

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#bikinitbéuniforme

O Instagram do Shaka Girls também acabou lançando, depois de um vídeo de desabafo postado por Yanca, a #bikinitbéuniforme. O desconforto vivido em uma situação de assédio no mar quando tinha 17 anos acabou retomado e exposto depois do incômodo em saber que uma amiga tinha passado por situação parecida. Gravou o relato em vídeo, ficou em dúvida se estaria disposta a lidar com possíveis comentários maldosos, mas fechou os olhos e postou no Instagram. Saiu de casa, não olhou as notificações e resolveu perguntar o que a mãe achava.

Yanca, você é maluca de postar isso”, ouviu da mãe preocupada. Mas quando entrou na rede, já tinha uns 50 comentários, gente compartilhando e contando suas histórias também.

Resolveram usar o alcance para impulsionar também o perfil Shaka Girls, e daí surgiu a hashtag, com o intuito de permitir que todas se expressassem e de avisar que o surf também é trabalho. Ficou surpresa ao ver que o engajamento também alcançou meninos da nova geração, que abraçaram o vídeo e entenderam a mensagem de que aquilo não é legal.

Quando publicou a história, Yanca sentiu um peso a menos nas costas. Afinal, com a vergonha que sentiu quando sofreu o assédio, havia guardado o assunto, tanto é que muita gente próxima só soube através do vídeo. Saía na rua e a galera queria conversar sobre o assunto, ganhou muita força. “Fui evoluindo e agora eu fico bolada ainda, mas não vou ficar triste. Vou surfar de biquini, quero surfar do jeito que eu estou, e me sinto bem melhor”. Para ela, é necessário que todas se sintam confortáveis para falar sobre o que vivem até o dia em que seja plenamente compreendido que o corpo feminino não é de domínio público.

Mulheres no surf

Yanca percebe evolução aos desafios impostos para as mulheres no surf. No CT, ela considera que já há mais igualdade. “A gente competiu em Pipe agora, vai competir no Tahiti. G-Land também. São ondas difíceis. Vai ser bem desafiador e bem legal de assistir”, comenta. Quanto às oportunidades mais igualitárias de surfar em boas condições, ela também considera que a fase é boa. “No CT, a maioria das vezes as meninas estão caindo num mar bom agora porque a Jessi (Miley-Dyer, vice-presidente de Circuitos e Competições da WSL) sempre dá um jeito. Eu penso que é irado estar acontecendo isso para os meninos sentirem na pele o que a gente passa”, diz.

No Brasil, segundo ela, essas mudanças ainda não chegaram. As meninas ainda são colocadas na maré seca, na hora do vento. “Essa questão da oportunidade de mar é super importante porque realmente não tem graça ver alguém surfando num mar ruim. E aí vão falar que é porque as meninas não surfam nada. Mas coloca a gente num mar bom, numa condição boa, pra ver como vai surfar bem. E não surfar meio-dia, vento pra caraca, dá uma batida e cai. Aí é feio mesmo. Nem eu assisto. Mas num mar bom, a gente vai quebrar”, resume.

Para as mulheres que não competem, a maior dica que Yanca tem é surfar o maior tempo que você possível. “Passar o dia inteiro dentro d´água. Sair com o braço sem conseguir levantar. Acho que esse é o melhor caminho pra evolução no surf. Quanto mais tempo você passa dentro d´água, mais você evolui”, ensina.

 

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Quer ouvir mais podcast de surf? Conheça o Surf de Mesa, podcast mais sincerão do universo surfístico, apresentado por Carolina Bridi, Junior Faria e Raphael Tognini.

Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.