Tipo mídia de surf, só que mais legal

Tudo que surfistas (e outras espécies de humanos) precisam saber sobre tubarões

Tudo que surfistas (e outras espécies de humanos) precisam saber sobre tubarões

Junior Faria, Carol BridiRapha Tognini não poderiam estar melhor acompanhados nesse episódio do Surf de Mesa. O biólogo Otto Bismarck Gadig, professor e pesquisador da Unesp, é uma das principais autoridades brasileiras quando se trata de tubarões e raias.

Antes de tudo, precisamos dizer que o momento coincide com o fervor crescente dos acontecimentos envolvendo tubarões no litoral brasileiro de Sul a Nordeste, mas o assunto estava nos planos desse podcast muito antes disso. Mais especificamente, desde o fim do primeiro semestre de 2020, quando percebemos um aumento das notícias sobre tubarões em águas estrangeiras.

Já naquela época nos perguntamos se um aparente aumento de encontros poderia ser reflexo de mudanças repentinas provocadas pela súbita imposição de pausa no ritmo frenético da humanidade. Alguns meses de suspensão na atividade humana considerada normal poderia ter devolvido à vida selvagem a chance de retomar seus espaços?

Cerca de um ano e meio se passou. E desde a metade de 2021, temos convivido com notícias envolvendo encontros entre pessoas e tubarões também no Brasil. Para tentar entender o que pode estar rolando, mas, acima de tudo, compreender o comportamento não só dos tubarões, mas principalmente dos humanos, tivemos uma longa, divertida e fundamental conversa com o Otto. Para ouvir e acalmar seu coraçãozinho de surfista com muita informação útil sobre essa presença que fascina tanto quanto assusta, é só dar o play aqui:

Ataques

Dois ataques com direito a uma morte em Jaboatão dos Guararapes. Registros de aparições frequentes na aparentemente inofensiva Balneário Camboriú. E dois ataques a turistas em pleno litoral norte de São Paulo no intervalo de 15 dias. Vendo as notícias se avolumarem nestes últimos seis meses, você já deve estar se perguntado se, como brasileiro, além de tentar não ser abatido social, política e economicamente em terra firme, agora também precisa se preocupar com um predador espreitando logo ela… Sua suada horinha miúda de lazer.

A notícia ruim é que, sim, no mar você precisa estar atento todo o tempo. Seja lá com o que for. Mas a boa notícia é que se você só se ligou disso agora, pode ficar feliz pelo longo período em que esteve lá são e salvo, apesar da ignorância.

Ainda que estejam brilhando na mídia brasileira somente agora, tubarões não são nenhuma novidade por aqui. Eles e as raias fazem parte de um grupo de vertebrados com mais de 1.200 espécies que têm um conjunto de características biológicas em comum. No Brasil, existem mais de 100 espécies de tubarões, inclusive algumas consideradas mais agressivas, como os tubarões Cabeça Chata, Tigre e Mangona. Eles estão por aqui agora e sempre estiveram.

Geração Jaws

Otto sempre se interessou pela questão de conflitos entre humanos e tubarões. A abordagem de acidentes e ataques era negligenciada até que, em 1985, ele começou a fazer um levantamento de todas as ocorrências no Brasil, não só do ponto de vista estatístico, mas também comportamental. O trabalho iniciado naquela época e a especialização em abordagens como estudo forense e análise de lesões, além de experiências que vão do IML de Recife a países com histórico de acidentes, como Estados Unidos, Austrália e África do Sul, o gabaritaram para atuar em situações de crise como essa.

No dia 16 de dezembro de 1975, o filme Jaws, de Steven Spielberg estreou no Brasil. Otto lembra muito bem da data porque sempre achou tubarões os peixes mais bonitos, e o filme só veio reforçar. “Eu sou da geração Jaws. Eu e vários pesquisadores,” afirma. Ao filme é comumente atribuída a responsabilidade pela distorcida visão de tubarões como assassinos de humanos. Mas Otto aponta a influência positiva da obra no aprofundamento do estudo sobre eles. Uma geração inteira de pesquisadores que se dedicam hoje ao trabalho com tubarões veio do interesse motivado pelo filme.

Cação ou tubarão?

Zero diferenças. Cação é uma palavra que veio de Portugal na época do descobrimento do Brasil. Os nativos usavam outras palavras para se referir ao bicho, mas no processo de colonização, o termo cação foi sendo ensinado e passado de geração em geração. Fato é que cação e tubarão são palavras distintas para definir o mesmo animal. Hoje, a diferença mora muito mais em uma artimanha comercial e no efeito psicológico do que qualquer outra coisa. Cação é um nome mais aceitável, comercialmente falando. Quando você come, é cação. Quando ele te come, é tubarão. “Depende de quem come quem”, relaciona Otto.

Mas a realidade é que quem come carne de cação, está comendo, na verdade, carne de tubarão. Muitas vezes em processo de extinção. Das mais de 1.200 espécies entre tubarões e raias, mais de 40% está em extinção comprovada.

Se você logo pensou: ´Ah, ok, mas eles também comem gente´, é bom levar em conta algumas informações importantes:

1. Quem mata mais?

Em média, um tubarão é morto a cada três segundos no mundo, totalizando entre 80 a 100 milhões por ano. No mesmo período, a média é de 80 ataques de tubarão a humanos, com 10 a 12 mortes. Levando em conta a quantidade de pessoas que entram no mar a cada segundo em todo o mundo, estatisticamente falando, esse número se torna insignificante.

O número de tubarões mortos por pessoas é infinitamente maior do que o número de pessoas mortas por tubarão. Ou seja, a questão envolvida nessa relação diz respeito muito mais ao âmbito psicológico e cultural construídos ao redor do animal. Seu próprio nome, no aumentativo, torna qualquer situação muito mais assustadora. Faça o seguinte exercício: Falando em voz alta estas duas frases: “O tubarinho arrancou a cabeça do mergulhador” e “Uma senhora foi atacada por um tubarão em Ubatuba”. E agora responda: Qual das duas tem mais impacto?

Gato, cachorro, mosquito. Todo animal ataca. Esse último, inclusive, é o animal que mais mata no mundo, estatisticamente falando. Mas a expressão “ataque de tubarão” se tornou pesadíssima por estar envolta em uma cultura construída do medo. “O medo é salutar, mas o medo transformado em ódio não é positivo”, defende Otto.

2. Estamos comendo um animal em extinção

Já se imaginou comendo uma onça, um panda ou um mico-leão-dourado? A diferença é que o tubarão não conta com o apelo popular a seu favor. O sucesso ou fracasso das campanhas de proteção a espécies ameaçadas de extinção infelizmente também depende do grau de ´fofolência´ do bicho. A realidade é que, ao comer, você está fomentando uma cadeia produtiva que está levando esses animais ao declínio. Pensando neles, somente isso já deveria te fazer pensar melhor. Mas pensando na sua própria espécie, a humana, isso também é um grande problema.

3. O oxigênio do planeta depende disso

Os tubarões estão no topo da cadeia alimentar do oceano. “Com todo o mérito e importância, se fala da Amazônia como o pulmão do mundo. A Amazônia é um balão de oxigênio. Pulmão mesmo é o oceano”, explica Otto. Isso porque 55% do oxigênio que respiramos na atmosfera do planeta é produzido no mar pelas algas marinhas. As algas marinhas fazem parte de uma cadeia ecológica que tem, no topo, o tubarão.

Ao afetar um predador de topo de cadeia, derruba-se toda a cadeia para baixo. Excluir este predador causa um colapso em todas as relações entre presas e predadores num efeito cascata que afeta a produtividade do oceano e, consequentemente, a produção de oxigênio. Sem oxigênio, a vida não existe.

4. O colapso é silencioso

Não existe discussão sobre mudanças climáticas sem falar em oceano. Mas a realidade é que quando você destrói um ecossistema terrestre, a destruição é visível. No mar, nem sempre. A massa d´água está lá e a onda está se formando. Mas lá embaixo não se sabe como está a degradação química e física. Em outras palavras, o colapso é silencioso. Tudo isso começa com a eliminação de predadores, os quais estão sendo abatidos em maior parte pela pesca de grande escala para atender uma demanda de consumo.

Então veja: se você não come o cação, não há demanda. Se não há demanda, não há caça de tubarão. Sem a caça, não há colapso na cadeia ecológica. Sem colapso, o oceano continua produzindo oxigênio. Com oxigênio, você e suas próximas gerações conseguem continuar respirando.

Vivo ou morto

A conscientização não passa por tornar o tubarão um animal fofinho aos olhos humanos. “Eu compreendo que as pessoas tenham medo. O que não compreendo é terem ódio”, afirma Otto. Para ele, alcançar esse objetivo parece difícil, mas não impensável. Há dúvidas, porém, se isso acontecerá a tempo de reverter as condições de degradação. Mas, com a velocidade da informação (apesar da desinformação andando junto), talvez seja possível construir consciência para obter apoio popular, fator fundamental para motivar políticas públicas.

Nos últimos 15 dias, Otto falou com 77 jornalistas que queriam saber por que o tubarão machucou uma pessoa em Ubatuba. Quando uma iniciativa privada localizada na mesma cidade lançou uma recompensa pela captura desse tubarão, vivo ou morto, Otto replicou a informação aos mesmos 77 jornalistas que o procuraram, mas somente dois se interessaram pela história. A necessidade de conscientização popular passa pelos diversos atores da sociedade, incluindo os ottos que pesquisam e informam, eu que escrevo e você que lê. Como surfista, banhista e humano, de que lado você está?

Hipótese

Otto explica que ainda não há estudos que provam cientificamente, mas existe a hipótese, que provavelmente será investigada, de que o confinamento durante a pandemia provocou comportamentos diferentes de muitas espécies, incluindo a humana. Não foi incomum, durante o período de quarentena, perceber a presença de espécies que há muito não davam as caras em ambientes tomados pelas cidades. Isso inclui aves, animais terrestres e marinhos. Registros de animais comuns e incomuns também. É possível que, na medida em que o homem se afastou, levando consigo a turbulência, os barulhos e o movimentos não naturais, os animais se sentiram mais à vontade em seus espaços.

Assim, se reorganizaram no espaço que já era deles. Dos últimos 20 a 25 anos, 2020 foi o ano em que se registrou o menor número de ataques de tubarão no mundo, e isso provavelmente tem relação com a pandemia. Agora, com as pessoas voltando com um pique maior, elevado pela ansiedade causada pelas restrições, os encontros com os animais em seus lugares se tornam inevitáveis, aumentando as chances destes encontros, conflitos e ataques.

Quanto mais gente na água, maior a probabilidade de encontrar um tubarão. A questão não é se tem mais ou menos tubarão. Mas sim se tem mais ou menos gente. Estes conflitos não podem ser analisados somente à luz do comportamento do tubarão, mas também do nosso.

Dicas para não dar match com um tubarão

Sabendo dessa hipótese, e conhecendo a realidade de que surfistas são um alvo mais sujeito ao interesse de tubarão, visto que se trata de uma população mais exposta e que ocupa a linha de frente em relação ao restante dos banhistas, nunca é demais ter em mente o que pode ser feito para evitar um encontrão desses:

  1. Alguns tubarões costeiros, sobretudo o Cabeça Chata e o Tigre, têm o horário de alimentação nos períodos de escuridão e crepúsculo, começo e final do dia. Não é recomendado permanecer durante muito tempo no mar nestes horários.
  2. Ficar no mar sozinho também não é recomendável nunca. Mas no caso dos tubarões, é importante saber que eles respeitam a hierarquia, o tamanho e a força. Por isso, “golfinhos criam o padrão dos maiores nadarem ao redor dos menores, que ficam no centro”, explica Otto. Ou seja, estar em grupo diminui as chances de um ataque. Além, é óbvio, de aumentar as chances de socorro em tempo hábil.
  3. Evitar objetos brilhantes dentro do mar, visto que o reflexo do sol pode lembrar as escamas de um peixe, é bem recomendado.
  4. Fazer xixi dentro d´água também não é uma boa. Tanto quanto o sangue, qualquer odor e fluido corpóreo é sentido facilmente pelos tubarões há distâncias consideráveis.
  5. Você também pode tentar diminuir o tempo deitado na prancha para evitar a exposição do tronco, uma área potencialmente mais vital. Essa é uma dica válida principalmente em locais onde se sabe que há presença de tubarões de grande porte, especialmente tubarão branco, que têm como padrão abocanhar áreas maiores logo na primeira investida.
  6. Por fim, lembre que estes encontros são extremamente raros, mas é sempre bom verificar quais as distâncias para chegar até uma estrutura que permita receber socorro, caso necessário.
Para saber muito mais detalhes sobre o comportamento dos tubarões, ouça o episódio completo do Surf de Mesa.

 

 

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