Tipo mídia de surf, só que mais legal

Surfista bom é surfista calado

Surfista bom é surfista calado

Texto: Carolina Bridi | Arte: Raphael Tognini

Neste episódio, resolvemos trazer ao ar uma pergunta que tem surgido desde que os boicotes de atletas do basquete americano chamaram atenção do mundo: Por que os surfistas não se posicionam publicamente sobre os mais diversos assuntos que dizem respeito a si mesmos e à sociedade em que vivem? Visto que muitos são referência para um grande público, não poderiam usar suas plataformas de amplo alcance para apoiar causas em que acreditam?

Fato é que, nas últimas semanas, vimos resultados bem práticos do que acontece quando um atleta se posiciona no Brasil. Assim, trouxemos estes acontecimentos em diferentes esportes e situações que tiveram consequências radicais dentro do próprio surf para discutir as dimensões dos riscos envolvidos no contexto de pseudo liberdade em que vivemos.

E, antes que alguém brade o lema “não estrague meu surf com política”, é necessário lembrar que poucas coisas nas quais estamos envolvidos diariamente em nossas rotinas não estão relacionadas a política. Se você quer reclamar da sua própria liga esportiva, isso é política. Proteger a sua praia é política. Criticar patrocinadores, mídia ou mesmo surfistas é política. Se você quer praticar um esporte nativo de uma terra invadida por colonizadores que tentaram banir esse esporte, isso é política. Inclusive, se você quer ficar quieto, isso também é política.

Dito isso, esqueça que existem lado A e lado B, desconstrua a ideia simplificada de que política é só situação e oposição, largue essas pedras que tem na mão, e vem ouvir e falar junto com a gente.

A conversa aqui independe do lado em que você se vê porque, no fim, vivemos todo dia lado a lado e dividimos o mesmo mundo.

Quem se posicionou

O ginasta Ângelo Assunção foi demitido do Clube Pinheiros no final de 2019 sob a justificativa de indisciplina. Entre os argumentos, desrespeito à hierarquia por ter levado denúncias diretamente à diretoria do clube. O ginasta defendeu o clube por 16 anos. Desde 2015, alega que vinha tentando dialogar com a comissão técnica e os atletas sobre assédio moral e injúria racial que vinham ocorrendo nos espaços do clube. Denúncias as quais nunca foram investigadas internamente. Depois da demissão, nenhum outro clube brasileiro se interessou em contratar o ginasta, um dos melhores no Brasil. O boicote levou o atleta a apelar para crowdfunding com objetivo de manter suas despesas básicas relacionadas ao esporte.

Mais recentemente, a atleta Carol Solberg, do vôlei de praia, fez seu protesto político durante a premiação de uma etapa do Circuito Brasileiro e acabou sendo denunciada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) também por indisciplina. O julgamento pode levá-la à pena de seis partidas de suspensão e pagamento de mula de até R$ 100 mil. Para fins de comparação, de novembro de 2018 até agora, R$ 104 mil foi o valor em premiação bruta que Carol recebeu com os resultados conquistados durante das etapas.

O uso do termo indisciplina nas duas ocasiões levanta a dúvida: ser disciplinado significa simplesmente se calar?

Surfistas que se posicionaram

Ao início de uma bateria durante o primeiro evento do Australian Grand Slam of Surfing da WSL, Tyler Wright ficou 439 segundos ajoelhada com o punho cerrado e segurando a prancha onde se via escrito Black Lives Matter em sinal de apoio ao movimento negro. Em seu Instagram, a bicampeã mundial publicou uma nota explicando o motivo pelo qual abriu mão de minutos da sua bateria para levantar a bandeira da justiça racial e equidade para todos. A reação, como não poderia deixar de ser em tempos digitais tão polarizados, foi instantânea e acalorada. Enquanto alguns apoiavam o ato, nos comentários pulverizados pela internet o que se viu foi uma maioria de surfistas criticando sua atitude por a considerarem totalmente desvinculada ao propósito do surf.

 

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Essa situação mostra que a ideia de refutar a inevitável presença das questões sociais e políticas também no esporte, especialmente no surf, não acontece só no Brasil.

Exemplos como o de Bobby Martinez no passado também mostram o que acontece com quem resolve falar. Ele se posicionou contrário à ASP (antiga WSL) em uma entrevista de um minuto após uma bateria, foi expulso e sofreu consequências irreversíveis para sua carreira. Não há nada mais grave para um surfista da elite do que ser expulso da entidade que realiza o circuito mundial. Isso representa, na prática, perder o emprego e ser banido do esporte, já que não existe uma segunda opção de circuito mundial onde se possa bater na porta. O caso de Martinez dá a noção exata do nível de consequência que o posicionamento de um surfista ou de um atleta pode ter em sua vida profissional e pessoal.

Consequências

Hoje, a internet permite tornar públicas estas consequências de maneira muito rápida. A realidade é que esportes que costumam ter uma cobertura mais próxima por parte da grande imprensa acabam tendo um maior acompanhamento oficial dos desdobramentos. No caso do surf, é fundamental observar que a cobertura da grande mídia é inexistente e a própria mídia especializada não cobre. Ou seja, no surf, as situações acontecem, mas não se tornam públicas. Ninguém fica sabendo os motivos da perda de patrocínio ou demissão de um atleta. Ninguém fica sabendo o que se passa depois que um atleta sofre punição disciplinar num evento. Também não há conhecimento sobre resultados de antidoping. Isso, óbvio, é decisão editorial baseada em pressão comercial. Ou seja, resultado de uma situação estrutural em que ninguém se sente confortável para abrir a boca.

A internet abriu possibilidades sim, mas há uma espécie de pacto silencioso que apregoa: não pega bem falar mal de qualquer coisa relacionada ao surf. A pressão comercial é o filtro que impede qualquer aprofundamento de visão crítica dentro de um mercado multibilionário. E, convenhamos, nenhum mercado deste tamanho consegue ser perfeito.

Pressão

Naturalmente, a  pressão não é necessariamente verbalizada, mas acontece indiretamente em uma atmosfera constante de que se posicionar pode gerar resultados negativos. A pressão vem nas respostas que desencorajam as primeiras tentativas e denúncias em primeiro escalão. O atleta faz a conta: com quem vou comprar essa briga e qual pode ser o resultado se eu ganhar ou perder? Diante de instrumentos frágeis de vínculo trabalhista, a pressão indireta não é difícil de ser aplicada.

O problema se alastra para além do atleta e chega à maioria dos segmentos profissionais que atuam no surf. Em algum momento, todo mundo se pega na autocensura. Há um agendamento dos assuntos tratados na mídia como um todo que passa completamente despercebido pela maior parte de quem consome o conteúdo. Isso impede que certos assuntos sejam tratados porque nas mídias profissionais existe uma estrutura financeira cada dia mais insuficiente para bater de frente com as barreiras da pressão comercial que resulta nesta autocensura.

Não se reclama nem diante de um calote. Não foram poucas as vezes em que as premiação de etapas de QS realizadas no Brasil tiveram atraso de mais de um ano ou simplesmente não foram pagas. No entanto, nunca se viu um atleta falando publicamente sobre isso ou uma mídia publicando a situação. Dessa forma, as pessoas que acompanham os campeonatos simplesmente não sabem o que acontece. São eventos apoiados por marcas e por governos das mais variadas esferas. Portanto, de interesse público, mas ninguém fica sabendo. Falta de informação verdadeira afeta diretamente na qualidade de escolhas, seja de marca consumida ou de representante escolhido.

Como isso impacta o surfista comum?

Ainda que muitos se tranquilizem pensando que tudo que querem se limita a dar pelo menos uma queda no final de semana, é fundamental lembrar que a política de uma forma global (e não necessariamente partidarizada) toca a todos. Um exemplo rápido que nos une é esse podcast.

O Surf de Mesa chega agora ao seu 84º episódio. Não fosse a autocensura um problema, era para estar chegando ao 87º porque em pelo menos três vezes os entrevistados convidados, depois de gravarem, pediram desesperadamente para não publicar o que falaram.

O motivo? Eles se arrependiam de ter dado opiniões que diziam respeito a si próprios ou contado situações que aconteceram com eles mesmos. Veja bem: ninguém estava arrependido de ter lançado um posicionamento ideológico ou uma opinião aleatória sobre algo que nada tinha a ver com sua vida. Mas estavam extremamente assustados com as consequências e represálias que poderiam sofrer ao contar situações reais vividas por eles. É onde chega o nível de realidade quando se normaliza e se estimula desvincular a liberdade de falar sobre tudo no surf.

O que pode ser tão sigiloso?

Nesse momento, temos certeza que você está se perguntando quais podem ser essas informações tão sigilosas. E isso mostra o que é impossível deixar de ver: o direito de falar não é apenas retirado do atleta. O direito de divulgar não é só tirado do jornalista. Mas o direito de saber sobre algo relacionado ao surf, sobre o ídolo, sobre a marca da qual consome, também é tirado de cada surfista que existe no mundo, de cada pessoa que só curte surfar e acompanhar o surf em suas mais variadas representações, incluindo aquele que está convencido de que surf nada tem a ver com política, sociedade e o que está acontecendo ao seu redor.

Há a tendência de atribuir ao surfista a imagem de alienado, de imaginar sua cabeça como um grande deserto. Muito por conta dessa estrutura invisível. Mas muitos surfistas não têm o hábito de falar sobre temas relevantes por medo e porque ninguém pergunta, e não por falta de opinião, de consciência ou do que falar.

Nossos episódios não publicados provam que quando existe a oportunidade da pergunta e um ambiente confortável para a fala, há muito o que se falar. Ainda que depois se peguem desesperados com as consequências, surfistas desejam falar, mas sentem que não podem. Dessa forma, perde-se em desenvolvimento da cultura. O papo de surfista só vai passar do “altas ondas” se houver a liberdade que o surf se orgulha de representar.

A política do surf

Não poderíamos terminar essa conversa sem mencionar o que é política, em sua forma mais popular, dentro do surf, e que tem dado sinais de problemas há tempos. A Confederação Brasileira de Surf (CBS) teve problemas com o uso de recursos públicos e com manutenção de poder. Quando surfistas não conseguem chegar a uma competição internacional devido à problemas na administração da entidade responsável pela gestão dos recursos destinados a isso, isso é política. E não tem como dizer que isso também não é surf.

Muito da condição vivida pela CBS também se dá pela impossibilidade velada de falar sobre política no surf. Gritar ´Fora Adalvo´ em uma ocasião pode soar vazio se todos dão um passo atrás quando um surfista resolve se posicionar sobre qualquer outro assunto relacionado a política governamental, política esportiva, políticas sociais e patrocinadores.

E só para finalizar com mais um exemplo de que surf também é política, lembramos que, em 1985, apartheid vigorando, três campeões mundiais (Martin Potter, Tom Carroll e Tom Curren) não competiram as etapas da África do Sul por se recusarem a pisar em um país de regime segregado. Afinal, não vale bater no peito e se orgulhar de praticar um esporte que integra, é bonito e natural sem agir de acordo com a noção de que todas todas as vidas têm o mesmo valor e precisam ser tratadas igualmente não só no discurso, mas principalmente na prática.

Nota da redação: Se você, assim como nós, tem calafrios quando pensa no que se normalizou como discussão política em tempos polarizados, tente pensar a política não como partidos, mas como relação entre pessoas. E só depois busque entender o que se alinha à sua própria forma de tratar os outros.
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Já conhece o outro podcast da Flamboiar?  VA surfar GINA é o podcast para quem saber mais sobre o surf feito por mulheres.