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Triquilhas: equilíbrio entre velocidade e controle | Parte 3

Triquilhas: equilíbrio entre velocidade e controle | Parte 3

Nesse episódio do Surf de Mesa, Junior Faria, Carolina Bridi e Raphael Tognini entram na terceira parte da conversa sobre tipos de pranchas de surf. Finalmente, o papo chegou nas triquilhas. Há quem acredite que, assim como o carro parou nas quatro rodas, as pranchas vão parar nas três quilhas. Afinal, elas são o padrão atual quando qualquer surfista pensa em performance. No último episódio, porém, mencionamos que as triquilhas se tornaram, na verdade, um paradigma. E agora, o surgimento e a função da terceira quilha é tratado com mais detalhes e aprofundamento.

Quer saber tudo sobre triquilhas? Dá o play e vem com a gente!

Para que servem as três quilhas?

As triquilhas foram uma evolução bastante natural da biquilha em uma época em que os shapes ainda não permitiam compensações em outras partes da prancha visando um maior controle.

A terceira quilha surgiu, portanto, como uma solução para obter mais drive, ou seja, mais segurança na curva.

Quando a triquilha apareceu nos campeonatos mundiais, a terceira quilha realmente fez muita diferença porque o shape ainda não proporcionava tantas possibilidades quanto hoje. Com todo o conhecimento adquirido no design de pranchas desde então, hoje já é possível fazer o papel da terceira quilha com um trabalho mais específico em partes do shape que não necessariamente passam pela adição de uma quilha.

Mas é importante destacar que, mesmo que as biquilhas atuais proporcionem performance com mais controle do que as originais da década de 70 e 80, ainda hoje elas também não representam um setup perfeito. Quem já surfou com uma entende que a biquilha, em alguns momentos, pode ficar solta demais. Isso é natural porque a rabeta desgarra mais, visto que ela proporciona menos estabilidade no 1/4 inferior da prancha.

O surgimento das três quilhas

O clássico evento do circuito mundial de 1981 em Bells Beach, quando Simon Anderson ganhou o campeonato usando uma prancha com três quilhas em um mar grande, de cerca de 8 pés, marcou o estabelecimento da triquilha como referência de performance. Na época em que muitos surfistas ainda tinham no quiver biquilhas e algumas monoquilhas para quando o mar aumentava, a presença de uma terceira quilha causou muito impacto. Anderson chegou com a Truster, modelo com três quilhas desenvolvido por ele, e fez um surf muito superior ao de todos os outros surfistas da etapa, inclusive de Mark Richards, referência nas biquilhas. E chegar com uma prancha considerada alternativa, fora do padrão, funcionando tão bem naquelas condições, mudou a história das pranchas de surf.

O que a terceira quilha resolveu?

As biquilhas da época desgarravam demais porque não possuíam concave, rocker e edge tão bem desenvolvidos. Hoje, é possível trabalhar cada parte do shape para compensar a estabilidade que a terceira quilha resolveu naquela época. E cada parte dessas, atualmente, pode ser trabalhada em combinações diferentes para fazer um trabalho muito mais direcionado para o tipo de onda que se pretende surfar. Mas é importante destacar que a Truster que Simon Anderson usou naquele evento não era apenas uma biquilha com uma quilha a mais no centro. Era, sim, um projeto completo de shape.

Logo na sequência, quase simultaneamente, estavam sendo experimentados outros designs de prancha e várias configurações de quilhas. Assim, é fundamental observar que não houve necessariamente uma ruptura entre os tipos de pranchas. Foram transições feitas a base de testes.

E, se naquela etapa de Bells não tivesse rolado aquele mar em combinação com aquela prancha específica, possivelmente a triquilha não teria se tornado o que é hoje.

Isso significa que o mais importante na história da Truster não foi só Simon Anderson surfar bem em Bells, mas sim vencer o campeonato, proporcionando o aval definitivo. Imagine a hipotética situação em que, em 2021, quando o título mundial for decidido na etapa de Trestles, Filipe Toledo apareça com uma biquilha e ganhe o circuito mundial, ou que Gabriel Medina alcance o almejado tricampeonato com uma de suas softboards. É bastante provável que em 2022, se não todos os surfistas, muitos deles estejam usando biquilhas ou softboards. O maior poder de influência será sempre o que os melhores do mundo estão usando.

O paradigma da triquilha

A biquilha é um setup muito bom, se não a melhor que existe, para ondas pequenas. Simon Anderson venceu com triquilha em um mar grande. Portanto, apresentou a triquilha naquela época como solução também para um mar grande.

Durante certo tempo a partir de 2010, muita gente começou a usar quadriquilhas nas etapas do Hawaii. A tendência acalmou e o que se vê hoje é praticamente só triquilhas nas principais ondas do mundo. O que precisa ser lembrado é que ali estão apenas 34 surfistas que são muito focados e concentrados no que já funciona porque hoje se tem muito mais a perder do que antes, por menor que seja o teste de inovação. Isso não significa que uma quadriquilha não funcionaria melhor em determinadas ondas, mas sim que o possível benefício talvez não valha o risco do teste em um contexto de tão alta performance que vive atualmente uma espécie de platô.

Talvez a quad não acrescente algo tão gritante em performance quando comparado ao que a tri acrescentou à biquilha da década de 80 para compensar seu uso em etapas tão relevantes quanto as do circuito mundial. E é esse cálculo entre risco x benefício que talvez mantenha a triquilha como paradigma de performance até hoje.

Velocidade x controle

Mas de uma coisa, as triquilhas podem se orgulhar. Biquilhas e quadriquilhas não são pranchas tão boas quanto elas para aéreos. Sua versatilidade permite que todo o caminho necessário que precisa acontecer antes do aéreo em si proporcione condições mais viáveis para conseguir performar bem na manobra. É nesse sentido que a triquilha funciona bem demais. Ela é muito versátil.

Quilhas criam arrasto e é o atrito que proporciona controle. Quanto mais arrasto, maior a perda de velocidade. E é desse equilíbrio entre velocidade e controle que depende qualquer manobra.

A pergunta é: Quanto de velocidade aceito perder para ter atrito suficiente para obter controle?

Biquilhas são quilhas maiores do que as quilhas laterais de um jogo de triquilha. Em resumo,  a área total de um jogo de triquilha será apenas um pouco maior do que a área total de um jogo de biquilha. E o grande lance da triquilha foi permitir o uso de quilhas menores. Monoquilhas tinham entre 7 a 9 polegadas. As biquilhas vieram menores, ou seja, perderam arrasto. E as triquilhas surgiram menores ainda, permitindo um pouco menos de arrasto. Isso significa que está sempre se tentando reduzir o arrasto para criar o balanço ideal entre velocidade e controle.

Não importa o número de quilhas que você terá, o design da prancha estará sempre pensando em gerar maior a velocidade possível com algum tipo de controle, seja através das quilhas, do edge, do foil das bordas, etc.

A importância do edge

O edge são bordas mais angulares localizadas na rabeta da prancha. Na década de 50, quando ainda não existia o conceito de edge nas pranchas, as bordas eram o que se chamava de 50/50 (fifty/fifty). Elas eram redondas, ou seja, a parte de cima era igual à parte de baixo. Foi se adaptando até chegar aos edges mais afiados que conhecemos hoje. Criados como quinas mesmo, até de 90 graus, chegam a funcionar como micro quilhas na borda da prancha. E na alta performance, isso faz uma enorme diferença. Tanto é que se ele começar um dedo acima ou abaixo, é capaz de transformar uma prancha em outra. É por isso que muitos atletas sabem exatamente, com muita precisão, até onde querem o edge em relação à altura da prancha.

Quanto mais afiadas forem as bordas, maior sua velocidade cortando a parede da onda.

Ou seja, quanto mais afiado o edge, mais dura em linha reta será a prancha. Bordas mais redondas, por sua vez, permitem uma troca de borda mais fácil, mas em compensação proporcionam menor velocidade linear. Por isso, pense que as pranchas são sempre um jogo de equilíbrio entre ganhar a maior velocidade possível mantendo controle.

A hegemonia da triquilha

A realidade é que, para a maioria de nós, surfistas comuns que não passam o maior tempo de suas vidas no mar, fazer testes podem significar também, em algum grau, sacrificar as pequenas evoluções esperadas do limitado tempo que dispomos para dedicar ao surf em nossas rotinas. Dito isso, é natural que se acate como verdades praticamente incontestáveis os equipamentos que os surfistas que mais admiramos usam como referência do surf que desejamos fazer. Visto que a mais alta performance é o que predomina como critério nas competições mundiais, a maioria da população surfista será influenciada pelo que fazem os 34 melhores surfistas do ranking da principal organização do esporte.

Talvez seja imbatível, portanto, a hegemonia da triquilha em um longo horizonte.

Adapte à sua realidade

É preciso apenas observar se o ideal de performance que você cultiva é compatível com a realidade que o cerca. E quando se fala em performance, o termo não se restringe a performance apenas do surfista, mas também da prancha e da onda. Portanto, dedique-se a encontrar um shaper realmente bom perto de você.

E lembre-se: O local faz o shaper, naturalmente. Até os melhores shapers do mundo admitem que fazem as melhores pranchas para as ondas da localidade onde têm sua base estabelecida. A troca entre a onda local e shaper é inquestionável. Não por acaso, muitos dos 34 tops do CT, mesmo tendo patrocínio de prancha, usam pranchas de shapers locais dependendo da onda onde vão competir determinadas etapas. Ainda que as pequenas diferenças no shape sejam extremamente mais sensíveis ao pé dos atletas do que dos surfistas recreativos, a relação próxima com um shaper pode fazer milagres na evolução de qualquer surfista.

 

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