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Surf e maternidade: Marina Palacio e o surf pós-parto

Surf e maternidade: Marina Palacio e o surf pós-parto

Nesta semana natalina de um ano em que a vida foi artigo de luxo, nada mais coerente do que celebrar justamente ela: a vida. O natal! Mas não a festa cristã. Natal mesmo, o substantivo. Nascimento. E ninguém melhor para falar sobre vida numa hora dessas do que uma mãe em pleno puerpério. Mas não qualquer mãe. Esse episódio do VAsurfarGINA conta as experiências de uma mãe que pariu da forma mais natural possível, logo depois de um mergulho no mar, e que 15 dias depois já remava de volta para ele. Uma mãe que está longe de romantizar a maternidade, mas que também transmite tranquilidade ao invocar um poder da natureza que tem sido surrupiado da nossa consciência conforme o mundo vai se tornando cada vez mais artificial, tecnológico e virtual. 

Uma mãe surfista que não parece ter medo de transformações, mudanças e mutações físicas ou emocionais, e que ao mesmo tempo em que expressa na agitação corporal sua inquietude individual, transmite o domínio tranquilo de quem sabe que a vida, assim como o surf e o mar, não tem controle.

Neste episódio, eu converso com a Marina Palacio, designer gráfico por formação que começou a surfar meio por acaso aos 21 anos e foi, aos poucos, criando coragem para deixar a intensa vida profissional de freelancer na maior cidade do Brasil para viver em uma praia tranquila, onde intensificou sua relação com o surf, fez amigos e formou família. Hoje, aos 36 anos, é mãe de dois filhos e não consegue ficar longe do mar. Tem o João, de dois anos, e ganhou a Maria Luiza no último dia 23 de novembro. Quinze dias depois do parto, voltou a surfar.

A Marina é uma mulher que mora logo ali na praia. E é incrível ouvir o que ela diz porque ela espelha o que muitas de nós idealizamos. É ainda mais incrível ouvir a Marina porque ela é exatamente uma de nós. Ao mesmo tempo tão comum e tão incomum quanto qualquer uma de nós. É, talvez, como se ver no espelho o mais realisticamente possível, e gostar do que vê.

Essa conversa com a Marina, para mim, foi um presente de Natal. E é o presente de Natal que eu deixo aqui para vocês porque presente que é bom mesmo tem que ser dividido. Então, dá o play e, se curtir e se identificar tanto quanto eu, compartilha com o mundo, que esse ano, especialmente esse ano, precisamos de mais vida do que nunca. E aqui, na voz da Marina, está a vida crua, real e, por isso mesmo, de uma beleza sem igual. 

O surf pós-parto

O período pós-parto, o chamado puerpério, na prática, é uma quarentena no sentido mais literal do termo: 40 dias que, em tese, demandam maior resguardo da mulher, tanto por questões físicas do próprio corpo compreender e se readaptar internamente, quanto pelos intensos impactos hormonais, que refletem nas condições psicológicas. Para Marina, resguardar-se também significa ter a liberdade para se movimentar e atender suas necessidades pessoais. “O surf, para mim, sempre foi uma terapia. É aquela hora em que você consegue descarregar o excesso do dia a dia, onde você não pensa em nada, se conecta com a natureza e com você mesma. Pra mim, é muito importante ter esse contato com o mar”.

O primeiro filho, João, nasceu de parto normal, com acompanhamento médico, no hospital. Marina se sentiu bem e a cada consulta a pergunta era a mesma: já posso ir para o mar?

Três dias depois eu já sentia essa necessidade por conta disso: o mar me equilibra.”

Existem os resguardos e eles são importantes, mas cada mulher é diferente da outra. Ela se sentia muito bem e em uma semana já sentia apta a qualquer atividade. Mas prevaleceu o resguardo e ela voltou a surfar 30 dias depois.

O parto da segunda filha, Malu, aconteceu um mês antes da data de publicação desse podcast. Dessa vez, a ideia foi ter um parto domiciliar com acompanhamento de parteira. “Elas tendem mais ao natural e compreendem melhor as questões emocionais sobre a necessidade de ir para a água”, opina. Uma semana depois, novamente, Marina já se sentia pronta para o mar. Mas a necessidade de uma pequena sedação para um ponto que foi preciso fazer após o parto fez com que a orientação de resguardo perdurasse um pouco mais. Marina voltou a surfar 14 dias após o nascimento da filha.

Marina Palacio surfando grávida_ foto Osmar Rezende
Marina surfando durante gestação da Malu | Foto: Osmar Rezende

A mulher e a mãe

Para Marina, o surf é o que a permite sair um pouco do universo materno. “É estar comigo mesma e ver que minha vida não é só a maternidade. Eu sou uma mulher antes de tudo.” Na primeira gravidez, a primeira médica que Marina consultou veio com uma lista de atividades proibidas. Entre elas, o surf. Sem entender como poderia ficar bem sem mexer o corpo na atividade que mais gostava, resolveu procurar outro caminho.

Se parasse naquele momento, de repente, ia enlouquecer. O surf é o que me mantém sã, me mantém na ativa. Não consigo descrever. Faz parte de mim. Não me vejo mais sem estar na água”.

Desde a infância, sempre brincou muito no mar e praticava esportes como ginástica olímpica e basquete. Mas nunca teve muito interesse por esporte aquático até que, durante as férias no Sul com a família, aos 21 anos, foi fazer uma aula de surf por pressão da mãe, que queria solucionar o tédio que tomava conta da filha. Água gelada cheia de água viva. Na primeira vez que subiu na prancha, Marina se redescobriu no esporte. A partir de então, morando em São Caetano do Sul, passou a ir para a praia todo final de semana. Com a vida adulta dando as caras, foi sentindo cada vez mais necessidade de um escape e começou a passar mais tempo na praia do que na cidade até decidir se mudar para São Lourenço, em Bertioga, há 4 anos.

Transição

Sempre teve o sonho de ter filhos e desde que chegou na praia, tudo foi fluindo naturalmente. 

Marina sempre trabalhou como freelancer em home office. Com a cabeça cansada da rotina no computador e tecnologia, levando até 12 projetos paralelamente, foi encerrando ciclos. Chegou a trabalhar como garçonete para fugir do trabalho mental exigido na labuta criativa. Precisava de um trabalho que se encerrasse nele mesmo. Algo em que trabalhasse e conseguisse se desligar quando chegasse em casa. Foi fazendo a transição e deixando o trabalho criativo de lado. Por outro lado, também foi a tecnologia que permitiu a mudança.

Ainda carregava alguns trabalhos de design, mas a transição aconteceu mesmo quando ela conseguiu transferir a fonte de renda para uma experiência que, além de tudo, a fez conhecer mais gente. Organizou a casa que a mãe tinha na praia para transformar em AirBnB e foi ficando metade do tempo em cada lugar. “Tive facilidades. Mas ao mesmo tempo eu sonhava muito, e às vezes a gente descobre que está mais próximo do que parece. Como o aluguel que eu pago aqui, por exemplo, que é muito mais barato do que eu pagava em São Paulo. Hoje, o home office também tornou isso possível para muita gente.”

Retorno ao natural

Quando recebeu recomendação da médica que a acompanhava a vida toda para que parasse uma série de atividades, passou a se questionar. “O surf, a proximidade com a natureza, fazem a gente contestar.” Percebendo que assim não estava legal e que não ia se sentir bem, soube que a longboarder Renata Porcaro tinha surfado grávida por muito tempo. Não demorou até entrar em contato com ela e pegar o contato da mesma obstetra.

Foi a melhor coisa que eu fiz. Eu sabia que queria ter um parto normal, mas é preciso se preparar, se informar, entender os sinais do corpo.”

A médica, segundo Marina, deu uma aula do que é o parir e o gestar.

As consultas eram em São Paulo, assim como seria o parto. Negociando com a médica, permaneceu na praia até a 38ª semana. Sempre ativa, foi quando Marina quebrou o dedinho que resolveu subir a serra para esperar o momento do parto. No fim, tudo aconteceu sem anestesia. “Tive a maior experiência da vida. Senti um poder tão grande, foi muito emocionante. Tem muita ligação com o mar, com a natureza, você entender a questão das águas, das luas. É muito poderoso trazer vida.”

Vendo Marina empolgada, soube pela médica que sua facilidade no parto permitia que, se um dia quisesse ter filho de novo, poderia ter em casa tranquilamente. “Ela me deu muita segurança.”

Marina Palacio - Foto Osmar Rezende
Marina e Malu voltando do surf | Foto: Arquivo pessoal Marina/@mesaque_matias

Em casa, do lado do mar

Este ano, Marina soube que estava grávida logo no começo da pandemia. Pensando em como fazer com hospital, consultas e tudo mais, decidiu ir atrás do que queria. Com dificuldade para encontrar parceira, conversou com o pessoal local e sentiu quanto as pessoas desencorajam a seguir pelo lado natural. Lembrando da médica do parto do João, que dizia que o melhor investimento que se faz durante a gravidez é investir em informação, começou a estudar.

Foi o que eu fiz. Não pensei em quartinho, só no parto. Fui estudando, vendo as possibilidade, tudo longe. Fui estudando até para fazer o parto sozinha, se fosse necessário”, conta.

Acabou conhecendo uma recém-chegada moradora do bairro que contou sua experiência e, com isso, deu a força que faltava. Acabou fechando com um coletivo de parteiras de Santos e uma doula do Guarujá, que foi essencial para as respirações e a conexão de Marina com seu corpo.

A diferença do primeiro para o segundo parto? “No hospital, dei uma travada. Não tinha dilatação, era enfermeiro o tempo inteiro entrando e saindo no quarto. Em casa, você está se sentindo melhor, o mar aqui do lado, no quintal da minha casa. Por que eu vou pra um ambiente totalmente fechado, cheio de gente diferente, se eu posso estar aqui com meu marido, meu filho?”

O parto

No dia do parto, Marina sentia algumas contrações, mas ainda não as de trabalho de parto. Estava tranquila e foi tomar um banho de mar. Era tudo que queria: a oportunidade de estar livre.

Depois do banho de mar, voltou para casa e o marido, Flávio, perguntou se ela achava que estava tudo bem para ele surfar durante meia horinha. “Estava fazendo meu ritualzinho de auto-cuidado e a bolsa rompeu”. Cinco minutos depois dele sair, começaram também as contrações com dor. Pediu para a vizinha ver se tinha alguém para chamar ele no mar, avisou a equipe que estava de sobreaviso e em 20 minutos já estava no período expulsivo, ou seja, momento de nascimento do bebê. Entrou no chuveiro porque a água é o que relaxa. Flávio chegou, a equipe estava vindo de Santos, mas foi tudo muito rápido.

Em 40 minutos já sentia ela aqui embaixo e acabou nascendo na mão do Flávio. Foi super intenso.”

A doula depois falou que, quando soube do banho de mar, sentiu que podia ser a hora porque o mar mexe com todas as águas, com todas as emoções. “Foi o que deu um incentivo, e foi ótimo.” A equipe chegou cinco minutos depois que Malu nasceu, a tempo de tirar placenta e ver se estava tudo bem.

A influência do surf

No primeiro parto, Marina queria normal, mas pensava em tomar anestesia se sentisse dor. Acabou não precisando de anestesia e sentiu o poder de seu corpo. “Mostram o parto como muita dor. É claro que tem dor, mas é muito mais do que isso. É muito transformador sentir o poder do nosso corpo”, diz. Tanto é que Marina tem sentido necessidade de ressignificar sua profissão. Passando por essas experiências, diz sentir um certo chamado para militar a favor disso.

Tiraram muito o poder da mulher. A gente tem que voltar a ter nosso poder e se reconectar com a natureza. Claro que hoje a gente tem o respaldo da ciência, da tecnologia, que não pode abrir mão, mas como eu fiz todo o pré-natal e estava tudo bem, foi questão de encorajamento mesmo, de estar cercada de mulheres para me ajudar.”

Marina acredita que o surf teve papel fundamental nisso tudo por ser um esporte onde não se tem controle algum da onda e do mar.

“Tem que estar ali e ir com a onda. Se o mar está muito forte, não adianta lutar contra ele. Tem que ir no flow. O surf me deu muita segurança, força e preparo para o parto. De entender isso. Que a força vem, que não adianta você controlar.”

Ao explicar que a contração é uma força que vem para empurrar o bebê, contra a qual não adianta lutar, Marina relaciona a dar um joelhinho numa grande onda. “Às vezes não dá certo e o você tem que soltar o corpo e deixar a onda te levar. E é bem isso. Se você bater de frente, você vai se machucar. Mas quando você relaxa, a dor não é uma coisa ruim.”

Surf e maternidade

Para encaixar o surf na maternidade, segundo Marina, é preciso muita força e coragem. “Todo dia é uma batalha. Tem o respaldo de família e tudo, mas está todo mundo seguindo sua vida. Então a gente tem que cobrar”, afirma. Sentiu muita cobrança ainda quando estava grávida, principalmente por parte dos homens. “Nossa, mas você está surfando ainda?” era uma pergunta recorrente. No fim da gestação, chegou a ouvir de outro surfista que estava esmagando a criança. “Ouvi cada coisa! Mas o negócio é ter força e ignorar. Não é um mar de rosas, é difícil, é militância. Para a mulher, tudo já é mais difícil sem filho. Com filho, o negócio pega muito forte”.

Mas Marina busca respaldo. Diz que na maternidade aprendeu a pedir ajuda. “Vejo alguém e falo: ´meu, pelo amor de deus, fica aqui um pouquinho que eu preciso ir ali na água rapidinho´”. Amigas que compreendem também costumam ligam se oferecendo para ficar com os pequenos se ela quiser surfar. É importante buscar essa rede de apoio, mas nem sempre é fácil. Quando João nasceu, Marina lembra que ficou muito na maternagem, de ficar presa só no bebê. Não demorou até começar a se sentir mal, pendendo para uma depressão. Percebeu que não podia ser assim e foi aí que começou a pedir ajuda. “Antes eu tinha essa ilusão de que tinha que virar uma mãe. Não era mais a Marina, era uma mãe que tinha que fazer tudo perfeito.” No fim, é preciso abrir mão de várias coisas para não descuidar de si mesma, até porque tudo está ligado.

Se o bebê está mal, geralmente é porque você também não está legal. É o lance da máscara do avião. Coloca primeiro o oxigênio em você, depois na criança. E aqui, estando pertinho do mar, o surf é o meu oxigênio.”

Bem no fim, Marina sente que seu surf melhorou depois da maternidade.

Antes era uma fixação pela performance, por evoluir, andar de skate, melhorar a qualquer custo. Durante a primeira gestação, para continuar surfando, precisou mudar de prancha. Foi quando usou mini simmons e descobriu um outro surf. “Comecei a me divertir muito”, lembra. Depois que João nasceu, voltou para a pranchinha performance, mas carregou o aprendizado de ler melhor a onda. “Durante a gravidez, tomava um pouco mais de cuidado, pensava melhor, lia melhor a onda. Depois que ele nasceu, continuei com esse aprendizado e me divertindo muito.”

Foi esse também o motivo que fez Marina estar no teste de pranchas da Flamboiar e da Shine Surfboards pouco tempo depois de parir. “Trocar de prancha evolui muito. A gente fica com medo porque sai da zona de conforto, mas vai ganhando sensibilidade, entendendo melhor o tempo da onda, o que é a prancha, a quilha, e todas as relações para subir, descer, fazer uma manobra”, define. A maternidade, para Marina, além de devolver a ela a compreensão do poder do seu corpo, a fez evoluir no surf. Como ela mesma definiu, trouxe maturidade no esporte.

 

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Quer ouvir mais podcast de surf? Conheça o Surf de Mesa, podcast mais sincerão do universo surfístico, apresentado por Carolina Bridi, Junior Faria e Raphael Tognini.

Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.