Tipo mídia de surf, só que mais legal

A visão autêntica que Sam Manhães traz para o surf

A visão autêntica que Sam Manhães traz para o surf

Sam Manhães conheceu Anna Verônica em 2019. Naquela época, Anna já rodava o projeto Rosa no Azul, um documentário que pretende levar as mulheres surfistas para a tela do cinema. E quando Sam chegou sendo Sam, daquele primeiro filho de uma só mãe, nasceu um filhote de duas mães.

Se o Rosa no Azul, da Anna, irá costurar as histórias das surfistas competidoras e freesurfers em um longa, By Women, que estreia nesta quinta-feira, 1º de julho, é um curta que conta a história das mulheres que estão no backstage do surf feminino.

As mulheres que os olhos não enxergam, as mulheres que os homens não enxergam, as mulheres que a sociedade não enxerga, mas que existem e fazem com que isso tudo aconteça”, explica Sam, nesse episódio especial entre temporadas do VAsurfarGINA.

As mulheres de By Women

Para Sam, a primeira personagem é a prancha que, por si só, já conta a história de várias mulheres. Possivelmente a primeira prancha feita no Brasil inteiramente por mulheres. Shapeada por Davênia Ferraz no Rio de Janeiro, laminada por Diana Nunes no Guarujá, com quilha produzida artesanalmente pelas mãos de Agnes Serafin em Cabo Frio, a prancha roda três cidades em seu nascimento, por onde passam também as lentes de Sam e Anna para conhecer e contar um pouco sobre estas três mulheres em imagens cobertas pela voz off de um texto potente.

Pronta, a prancha de By Women passa das mãos das fabricantes para os pés de surfistas admiradas por diferentes gerações. A campeã brasileira de 2020, Yanca Costa, é a protagonista Jaci, que surfa com a prancha durante boa parte do filme antes de entregá-la para surfistas como Silvana Lima, Chloé Calmon, Evelin Neves até chegar às meninas da nova geração, Sarah Ozório e Sofia Tinoco.

Ainda mais precioso, em sua opinião, foi a possibilidade de contar a história de outras mulheres que não estão envolvidas diretamente com o surf feminino, mas com o suporte às mulheres que estão no meio. Tia Norma, vizinha de Sam no Camorim, e tia Valmira, tia da assistente de produção do filme Agatha Crysthine Penha, surgem em cenas que correlacionam de forma sensível a presença indireta de todas as mulheres no surf.

“Conseguimos reunir mulheres que admiramos dentro d´água à mulheres que a gente admira de todo coração fora d´água e que tocam a vida de forma que inspira muitas outras mulheres também.”

Conseguimos relacionar as histórias dessas mulheres que os olhos que enxergam praia, surf e altas ondas ainda não conseguem enxergar”.

Visões autorais

Sam Manhães e Anna Verônica são mulheres muito, muito diferentes. O choque de gerações, de experiências e de origens de mundo, na visão de Sam, foi justamente o que permitiu agregar valor imensurável ao filme. “O que fez esse filme acontecer de verdade foi o fato de eu não me enxergar em tudo aquilo que eu consumia sobre surf feminino. E o fato da Anna sempre querer fazer algo diferente e em que ela também se enxergasse, e não ter com quem tocar o projeto”, conta.

Mais do que se identificar ali, Sam queria que as pessoas de onde veio se enxergassem e se identificassem também. “As pessoas do meu bairro, da minha vizinhança, minha vó, minha família, meus amigos. Que elas pudessem assistir alguma coisa sobre surf que de fato contasse um pouco de histórias de pessoas que elas conhecem. Minha vó, que nem nada, pouco vai ao mar, mora em Seropédica, poder assistir esse filme e se identificar de alguma maneira como uma mulher que possibilitou pra que eu estivesse lá”, diz.

Se é pra falar de mulher, a gente não pode falar de uma coisa só porque nós somos um milhão de coisas.”

Foram mais de dois anos de produção com uma equipe formada majoritariamente por mulheres. Algo inédito na produção audiovisual do surf brasileiro. Na ficha técnica, cinco mulheres e dois homens. No elenco, 11 mulheres e um menino. O resultado foram mais de 15 minutos de uma narrativa baseada em identificação, pertencimento e reconhecimento das mulheres no surf e na vida.

Produzir algo que traz visão original e uma expressão autêntica demanda tempo. Não só de produção, mas de gestação e maturação. “Esse processo me ensinou como as coisas precisam ser no tempo delas e a gente precisa aprender a não se frustrar com isso. Não é de qualquer jeito. Enquanto isso não passa a mensagem que eu quero, eu preciso continuar. Rolou, a gente conseguiu e espero que essa mensagem chegue às pessoas que tem que chegar”.

Yanca Costa em cena de By Women, de Sam Manhães e Anna Verônica.

Sam Manhães fotógrafa

Sam é formada no Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, localizada em Seropédica, cidade onde nasceu, na Região Metropolitana do Rio. Bolsista de Iniciação Científica, teve acesso pela primeira vez a uma câmera fotográfica para mirar nas plantas do projeto em 2016. Naquele ano, o Brasil viveu uma mobilização estudantil conhecida como a Primavera Secundarista. A escola onde Sam estudava foi uma das milhares ocupadas. “Comecei a usar câmera, celular, tudo que eu tinha pra registrar aquele momento”, conta.

Mais tarde, novos atos rolaram e Sam seguia firme na ideia de mostrar aos pais e famílias que aquilo que estava acontecendo ali não era o que eles pensavam ou o que a mídia mostrava. Desde então, surgiu a necessidade de mostrar que aquilo que enxergava não era aquilo que consumia. Até que, no final daquele ano, veio a indicação médica para prática de atividade física para cuidar de uma depressão.

Estudava em Seropédica e morava no Camorim com o pai nos finais de semana. Foi ele quem matriculou Sam numa escolinha de surf. A ideia era surfar, mas a necessidade de registrar o que acontecia ali dentro da forma como enxergava a fez levar a GoPro do irmão pra fotografar dentro d´água. “Acho que aquilo tocou no meu coração de uma forma bem íntima, que eu ainda não entendo, mas que eu amo muito.”

Acima, Sam Manhães nos bastidores da produção de By Woman, por Anna Verônica.

Sam Manhães é muitas

Formada no colégio, fez uma mentoria de fotografia aquática que abriu um mundo de conhecimento e contatos com pessoas do meio. Já estava na faculdade de Educação no Campo, mas só conseguia pensar em estar no Rio de volta para fotografar. Trancou a matrícula e seguiu o que a intuição mandou.

A trajetória a partir dali foi de reconhecimento do talento. Primeiro, por mulheres já estabelecidas no meio, o que abriu oportunidades que ela soube aproveitar enquanto também corria atrás de crescer tecnicamente. Uma necessidade que Sam sabe, como ninguém, que não tem fim.

Hoje, além de continuar expressando o que vê no surf e na vida através das lentes, também voltou para a faculdade. Agroecologia em um município do interior do Paraná, dentro de um assentamento do Movimento Sem Terra.

Desde que eu saí de Seropédica e fui pro Rio tentar a vida do jeito que eu to tentando, eu quero poder tornar um pouco menos difícil pras pessoas de onde eu vim a ideia de que a gente tá aqui, mas se quiser estar lá amanhã e se tiver que fazer de tudo na vida pra isso, eu quero que pareça ser menos impossível. Pra galera de Seropédica que quer ser rapper, artista, qualquer coisa, que pareça menos impossível ser o que a pessoa quer ser”.

Ela continua percorrendo o caminho com direito a múltiplos interesses, inquietação e conflitos internos e autenticidade. Todas características de grandes talentos da arte e de personalidades inspiradoras.

Não nego, não escondo. Amo essa mulher. E são poucas as vezes que não me declaro para ela.

Nada do que eu escreva aqui expressa o tanto que ela é. Por isso, paro por aqui e, se eu fosse você, daria o play nesse episódio que vale por uma temporada inteira, porque tem muito mais da Sam pra você conhecer ouvindo essa voz em primeira pessoa.

Quer assistir By Women? A pré-estreia acontece no dia 1º de julho, às 20h, com exibição online via Zoom. O link estará disponível no Instagram, nos perfis da Sam e da Anna. E deixaremos disponível aqui na Flamboiar também.

 

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Quer ouvir mais podcast de surf? Conheça o Surf de Mesa, podcast mais sincerão do universo surfístico, apresentado por Carolina Bridi, Junior Faria e Raphael Tognini.

Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.