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Formação das ondas e leitura do mar | Com Renata Porcaro

Formação das ondas e leitura do mar | Com Renata Porcaro

Chegamos na última semana desse ano doido. E nada mais final de ano do que se jogar no mar para tentar lavar corpo, alma e mente dessa ressaca que a gente insistiu em chamar de 2020. Melhor ainda se for com informação útil sobre como ler previsão de ondas.

Por isso, para fechar bem o ano, eu convidei a Renata Porcaro, longboarder e oceanógrafa que eu admiro de longa data, para ajudar esse podcast a mergulhar de vez as ideias nos movimentos dessa imensidão de água salgada. Isso mesmo! Esse episódio é todo sobre ele: o mar! Ambiente tão instável e misterioso que pode ser facilmente comparado à própria complexidade da existência humana.

A Renata primeiro amou o mar, depois o surf e depois a oceanografia. E é desse acúmulo de conhecimento, tanto empírico quanto científico, que ela vem explicar o que muitas e muitos de nós desconhecemos. Quando muito, intuímos… Da formação das ondas e toda a mecânica natural envolvida nesse respeitável parquinho de diversão, até a melhor forma de aprender mais sobre leitura do mar, a Renata dá o caminho das pedras… Das pedras, não! Das águas!

Renata e o mar

Renata Porcaro nasceu em São Paulo e morou na capital até os 25 anos de idade. Mas desde muito cedo teve uma relação próxima com o mar. Aos finais de semana, feriados e férias, era para lá que ia com os pais ou as tias. Foram elas, as tias, que incentivaram o primeiro contato com o surf, quando a matricularam na Escola de Surf da Riviera, em Bertioga. Aos quatro anos, idade do seu filho Ben, ela estava fazendo o que hoje vê ele reproduzindo: brincando na beira, rolando nas ondas, brincando com um bodyboard. Ali o mar já tinha ganhado seu coração, mas o surf mesmo surgiu entre 10 e 11 anos, quando entrou na escolinha de surf onde anos depois passou a trabalhar durante as temporadas, ajudando no atendimento.

Nessa época, Renata tinha uma pranchinha, mas era fascinada pelas pranchas pranchas grandes. Poucas pessoas surfavam de longboard por lá, mas ela já as tinha como referência. “Achava incrível a pessoa conseguir entrar num mar maior com aquela prancha tão grande”. Mesmo sem ver muita gente se jogando nesse estilo de surf por ali, definiu que teria um longboard. Quando surfou com um a primeira vez, se apaixonou e a partir dali não quis saber de outro surf. Mesmo assim, acredita que todo surfista precisa surfar com todo tipo de prancha.

O melhor é ter uma variedade no quiver e quem define a prancha é o mar, não você. Isso é um conhecimento pragmático de todo surfista que ajuda muito na hora de ler o mar, ler a onda e escolher o equipamento que vai surfar no dia”, diz.

Renata e a oceonografia

Quando decidiu cursar Oceanografia, Renata descobriu que o mar ia muito além do que ela já conhecia. “O curso me fez enxergar aquele ambiente com múltiplas visões. É um ambiente que pode ser amplamente explorado e a gente não conhece. A gente não aprende isso na escola, não tem nada sobre geografia costeira, por exemplo, sobre geologia. A biologia marinha é escassa demais no Ensino Fundamental e Médio. Então, enxergar que o oceano e seu estudo pode vir de várias vertentes, tanto física, química, geológica e biológica, além da humana – porque também tem os povos do mar que também sobrevivem daquilo – acho que foi a grande sacada”, conta.

Ela explica que a graduação em Oceanografia na USP (Universidade de São Paulo), onde se formou, tem no ciclo inicial as disciplinas relacionadas a física, química e geologia básicas. Depois, vai para ondas, marés, mecânica de fluidos, poluentes. Ou seja, partes mais específica de cada área da oceanografia.

Para mim, é um mundo a parte, que todos têm muito a aprender, inclusive quem já é formado em oceanografia porque são muitas as especializações”, explica.

Hoje Renata faz parte da equipe de monitoramento de praias do Instituto Argonauta, uma ONG de conservação costeira e marinha. O monitoramento verifica encalhe de animais marinhos com objetivo de avaliar o impacto da extração de óleo e gás na costa brasileira. Animais encontrados vivos são encaminhados para o centro de reabilitação do Instituto, enquanto os mortos seguem para a equipe de necrópsia. 

Impacto sobre a vida marinha

O monitoramento diário das praias em vários estados do Brasil para avaliar o impacto da extração do óleo e do gás sobre a fauna de tetrápodes marinhos (tartarugas, mamíferos e aves) é uma condicionante do Ibama para a Petrobras operar na Bacia de Santos. Renata explica que toda licença de exploração ambiental tem suas condicionantes, e que a execução diária desse projeto é uma delas. Só no Instituto Argonauta são mais de 20 técnicos de campo atuando hoje. Renata é um deles. Diariamente, monitora o trecho para o qual foi designada.

Há cinco anos no projeto, ela conta que no litoral norte de São Paulo a tartaruga verde é a espécie mais encontrada durante os monitoramentos. A maioria, segundo ela, morta por interação com lixo ou apetrecho de pesca. O que significa que, pelo menos neste trecho, o maior impacto tem vindo da costa, muito mais do que óleo e gás, que é pouco encontrado na região, segundo ela, até por se tratar de uma área já bem afastada.

Compreender o mar

Se você, como surfista, também já se perguntou qual a melhor forma de começar a entender mais profundamente o mar e seus movimentos, Renata dá a dica. O melhor caminho é cruzar a observação direta com as informações disponíveis nos recursos tecnológicos disponíveis.

Observar previsões de ondas ajuda, diz ela. Mas, para isso, é preciso levar em consideração o lado para o qual está virada a linha de costa e o relevo do fundo do mar naquele lugar. Não é algo simples. Por isso, estando lá, no ambiente, é mais fácil entender a partir da oportunidade de vivenciar os diferentes fatores, que são muitos.

A zona costeira é uma zona de transição entre o oceano e o ambiente terrestre. São muitos os fatores atuando ali. Vento, maré, correntes, geografia do fundo do mar, amplitude da maré. São muitas variáveis para você estudar sem ser pragmaticamente. Estando no ambiente, é mais fácil conseguir entender”, sugere.

Estar no mar

Para Renata, as pessoas que vivem nesse ambiente desde sempre são as mais indicadas para ensinar sobre ele. Nesse grupo, pescadores locais e surfistas que pegam onda há muito tempo na região poderão ajudar a desvendar os mistérios daquele trecho. “É incrível! O pescador sente o vento e já fala se vai entrar chuva ou se está limpando o tempo ou se vai entrar onda. Eles sabem porque é aquilo que eles veem desde sempre”, diz. Tanto é que durante as saídas de campo da faculdade, ela costumava falar para o mestre do barco que nem outra vida de oceanografia poderia ensinar tudo que ele sabia.

Era incrível tudo que ele sabia pelo simples fato de estar no mar. Não tem muito jeito, não. Tem que estar no mar”. 

Por isso, ela avisa que se você está no mar com sua prancha buscando uma consciência desse ambiente, você já está no começo desse caminho.

Ela sugere, como exercício, que antes de ir até a praia, se comece a observar em apps como vai estar a maré e qual a previsão do vento. “Qualquer celular tem bússola. Você consegue saber. A intensidade não tanto, mas a direção com certeza. Observa a ondulação. De onde ela está vindo? Qual o tamanho das ondas? São coisas que a gente consegue cruzar. Dá para fazer anotações também. Tipo: a previsão tal dia estava dizendo que a ondulação vinha de Sudoeste e o vento de Leste. Fui para tal lugar, estava bom, estava ruim, estava pequeno, estava grande, estava melhor. É um estudo constante”, ensina.

Fazer estes cruzamentos é uma forma inteligente de tentar entender o ambiente em que você está a partir da utilização da tecnologia disponível e da observação in situ”, avisa Renata.

Formação da onda

Renata explica que a onda se forma em alto mar e o grande responsável é o vento. “O que vai definir o tamanho dessa ondulação, a direção e a energia que ela vai chegar na linha de costa é a área que este vento está soprando, que a gente chama de pista; a intensidade com que ele está soprando; e por quanto tempo ele atuou naquela área. São estes os fatores que determinam”, explica.

São várias as áreas de formação no oceano todo, e a ondulação vai viajar de acordo com a direção em que foi formada. Já o tamanho que chegará na costa depende da intensidade desse vento e quanto a ondulação viajou.

Conforme a ondulação vai viajando, ela vai ganhando energia. Renata explica que a crista e a base têm a mesma velocidade, e conforme ela vai encontrando uma região menos profunda, a altura diminui. Com isso, a crista passa a ter um movimento mais rápido do que a base, e é isso que faz com que uma onda se quebre. “A partir do momento em que a onda quebrou, ela já não é mais onda porque a onda não transporta matéria, só transporta energia. Esse é o conceito. Conforme ela atinge a região mais rasa, ela vai diminuir a velocidade da base enquanto a velocidade da crista se mantém, e é aí que ela vai quebrar”, descreve.

A maré

A equação da maré, explica Renata, é a mesma equação da onda. Nada mais é do que o deslocamento da água gerado pela gravidade da Lua, principalmente, mas também de todos os astros sobre a Terra. “Por isso, a gente tem uma previsão de maré. Porque são vários astros influenciando no deslocamento da água”, resume. Como a maré influencia na quebra da onda e se ela tem influência antes do momento em que a onda quebra na costa, segundo ela, é uma questão complexa porque muda conforme a região.

No dia dessa entrevista, Renata havia voltado de Jericoacoara, no Ceará, onde correu o Brasileiro de Longboard, onde pôde observar as diferenças em relação às praias do litoral de São Paulo. “A amplitude de uma maré de quadratura (lua crescente e minguante), que não é a maior amplitude de maré vista, no Nordeste é de mais de dois metros de variação. Sendo que no Sudeste a maré de sizígia (lua nova e lua cheia) atinge no máximo 1 metro e meio de amplitude. Então lá a força de maré é muito maior do que aqui. A amplitude dessa maré é muito maior”, compara.

Assim, ela observou que em Jericoacoara, quando a maré estava enchendo, a onda ganhava força. Com a ondulação pequena, a força da maré enchendo também ajudava na força da onda. Assim, quando a maré enchia a onda atingia o fundo de pedra, fazendo-a ser mais perfeita. Mesmo sendo mais na beira, na opinião de Renata era uma onda mais surfável do que na maré seca. Até porque a onda, escondida atrás da duna, não sofria influência do vento. Ou seja, são tantos os fatores envolvidos, que tudo depende muito do pico em questão. “É um conhecimento pragmático”, define.

Dicas para saber o básico

Ainda assim, Renata dá a dica de que há muita informação disponível para conhecer os conceitos e termos básicos envolvidos em uma boa leitura do mar. O projeto “Bate Papo com Netuno“, por exemplo, é formado por mulheres oceanógrafas, biólogas, cientistas que falam de ciências do mar como um todo, tornando a linguagem científica mais acessível. É um bom caminho para tirar dúvidas sobre conceitos básicos. Uma pesquisa criteriosa no Google também ajuda no esclarecimento dos termos básicos mais úteis para entender a previsão.

Altura da onda, direção do vento, período. Para entender estes conceitos básicos que aparecem nos modelos de previsão que estão disponíveis hoje em dia é muito válido fazer uma busca geral no Google para conseguir entender a previsão de fato. Mas o mais importante, na visão de Renata, é estar atento ao ambiente em que você está vivendo. Tentar compreender mais profundamente o ambiente que você está desfrutando para poder preservar.

Sem a sensibilização das pessoas em relação àquele ambiente, não vai ter preservação nunca. As pessoas não conseguem preservar aquilo que elas não conhecem. É preciso pensar para onde vai seu lixo, para onde vai seu esgoto. São informações importantes, principalmente para quem frequenta e mora na zona costeira.”

Ela lembra que só o fato de existirmos, já gera impacto. Assim, o melhor caminho é tentar reduzir o consumo, especialmente das pequenas coisas. “Existe a ideia de que o surfista é um cara mais consciente, mas isso não é uma verdade. Prefiro acreditar que as pessoas estão um pouco mais conscientes. O contato com o mar acaba sendo especial e quem pega onda começa a tentar buscar mais conhecimento. Mas muitos só vão usar, virar as costas e não querer saber de nada. Consigo perceber que as pessoas estão tentando se envolver mais na causa. Prefiro pensar desse jeito para não desanimar. Ainda mais trabalhando num ambiente de praia, o que eu vejo é cada vez mais lixo, mais gente, mais esgoto. E poucas formiguinhas tentando melhorar. O sistema é insustentável. É preciso minimizar danos”, avisa.

 

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Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista e uma das criadoras da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. No Instagram, atende pelo @carobridi.