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Brazilian Storm: a tempestade é (a)temporal?

Brazilian Storm: a tempestade é (a)temporal?

Você sabe onde, quando e como surgiu o termo Brazilian Storm? Se já está preocupado com a continuidade da predominância brasileira no surf mundial a que nos acostumamos no últimos anos, talvez ignore os meandros que estiveram envolvidos no contexto de surgimento deste termo, que evoluiu massivamente até se tornar uma espécie de definidor oficial do sucesso brasileiro no surf. Algo que não se deveria perder. A questão, porém, quando colocada sob um ângulo historicamente analisável, pode tirar a pressão por uma suposta continuidade.

O que queremos dizer é que Brazilian Storm designa um movimento baseado no comportamento específico de um grupo de atletas que fez sua força se tornar inquestionável. Surfistas que viveram sua formação como atletas em um período proporcionado por uma conjuntura específica. Algo tão complexo quanto reunir condições históricas, comportamentais, sociais, econômicas e políticas internas e externas que forjaram a situação perfeita que resultou no seu surgimento. Uma cadeia de ações e consequências certas e erradas ao longo da história do surf e do Brasil que culminou em um momento propício para que não apenas um ou dois se sobressaíssem no cenário mundial do surf. Mas sim um grupo muito maior. Tão grande que foi impossível passar despercebido, independente de quem fossem os donos da cena tradicional.

É por isso que, neste episódio, o Surf de Mesa foi da origem ao desenrolar do Brazilian Storm para saber se desejar sua continuidade é produtivo ou não passa de um apego pouco racional. Afinal, como toda tempestade, é natural imaginar que esta também passe um dia. Porque, convenhamos… Quem foi que determinou que o sucesso brasileiro no surf só existe se for (a)temporal?

A origem do termo

O termo Brazilian Storm foi cunhado pela primeira em 2011 durante o Nike Lowers Pro por um dos locutores do evento. Assim como o US Open de Huntington Beach, o Lowers Pro era um dos mais importantes eventos do ano. Prime, ou seja, com pontuação mais alta do QS da época, ele acontecia no segundo semestre, quando tudo já estava em vias de se definir para o fim do ano. Isso significa que era uma etapa extremamente importante para a classificação no CT porque não era incomum que quem se desse bem ali, conseguisse passar para a parte de cima do ranking, ficando muito mais próximo de disputar, definitivamente, seu espaço na elite. Pesava ainda o fato do evento acontecer em Trestles, Califórnia, um dos principais palcos de surf no mundo.

O evento começava em uma terça-feira e terminava no domingo. Lá pela sexta-feira começou a definir uma forte tendência classificatória. A presença maciça de brasileiros nas chaves começou a gerar um clima cada vez mais acirrado. Junior Faria, não só testemunha ocular desse momento como parte integrante dele, define de uma forma bem simples:

Era o mundo contra os brasileiros.”

A expressão surgiu quando todos (incluindo o locutor) perceberam que eram os brasileiros, aproximando-se em maioria das fases finais, que precisavam ser combatidos. Na classificação, só bandeirinhas do Brasil. Uma ou outra gringa em um evento que, historicamente, é dominado pelos locais ou disputado de forma homogênea entre surfistas do mundo inteiro, já que a onda favorece a diversidade dos tipos de surf.

O que veio em seguida

Diante da possibilidade de ter não uma final, mas uma semi ou até quartas somente com brasileiros, fez-se a tensão que originou o termo para definir o que era impossível ignorar. Existia um grupo muito forte de brasileiros que estava dominando a cena, ainda que a preferência geral estivesse sobre os Gudauskas, donos da casa. Um deles chegou à final.

Miguel Pupo venceu a etapa sobre Tanner Gudauskas, que havia eliminado Thiago Camarão na semi. Jessé Mendes tinha caído também na semi. Fato é os brasileiros predominaram em todas as etapas, com um grupo considerável obtendo resultados relevantes naquele importante evento. Além dos três, Heitor Alves, Junior Faria, Jadson André, Gabriel Medina, William Cardoso, Alejo Muniz, Adriano de Souza, Hizunome Bettero, Caio Ibelli, Pablo Paulino, Pedro Henrique, Leo Neves, Wiggolly Dantas, Jerônimo Vargas, Bernardo Pigmeu e Leandro Bastos tiveram bons resultados.

Chama atenção que ali não estavam só atletas de uma mesma geração esportiva. No mesmo evento, o Brasil teve Neco Padaratz em 73º e Miguel Pupo em 1º, com tantos nomes brasileiros do meio para a frente do ranking. Era impossível passar batido que algo de diferente estava acontecendo no tradicional reino do surf.

Em grupo

Foram brasileiros competindo com brasileiros durante boa parte do campeonato. “Um sentimento de Brasileiro Amador nível Copa do Mundo”, brinca Junior, que terminou em 5º naquele Prime, um dos resultados mais importantes de sua carreira profissional. Uma das quartas era formada por Junior e Camarão, que competiam juntos desde os 14 anos de idade no circuito paulista amador.

Os dois, inclusive, junto com Jessé, dividiam o mesmo quarto.

No domingo de manhã, daquele quarto apertado onde mal cabiam três camas, saía quase metade do campeonato.

Para dividir os custos, é comum que os surfistas brasileiros viagem em grupos maiores. Nos palanques, a galera toda se reúne também. Isso, naturalmente, junto aos resultados inquestionáveis, contribuiu para a formação da imagem que deu origem ao termo Brazilian Storm. De uma forma ou de outra, eles faziam barulho.

Naquela manhã de decisões, os três chegaram ao estacionamento de Trestles e descobriram que a cor da pulseira e do crachá do carro que davam acesso às áreas mais restritas do campeonato havia mudado, mas, no dia anterior ninguém “lembrou” de avisar os brasileiros. Foram barrados pelo segurança e só conseguiram entrar porque um dos principais locutores da WSL estava no carro de trás e resolveu intervir. E foi assim, de um dos mais importantes eventos do QS, que saiu o termo Brazilian Storm. Não era mais possível negar.

Afinal, o que é o Brazilian Storm?

São pessoas específicas? É uma geração inteira? Um time? Uma marca? Um programa de TV? Preferimos definir como um movimento. Até o final daquele ano, a atenção sobre os brasileiros estava concretizada, mas o termo ainda não era definitivo. O que só aconteceu com um empurrãozinho da imprensa americana, que passou a adotar o nome.

Gabriel Medina tinha acabado de entrar no CT. É é fundamental reforçar que o termo se originou de uma etapa do QS, ainda que no Brasil ele tenha se popularizado e tomado tamanha proporção em decorrência dos resultados e títulos mundiais alcançados no CT.

Parte daqueles nomes que estavam no dia em que o termo foi usado pela primeira vez não têm, necessariamente, seus nomes vinculadas ao termo Brazilian Storm atualmente. Mas a realidade é que foi necessário um grupo muito grande, de mais ou menos 15 atletas se dando bem em um evento de grande relevância, para gerar o que veio a se tornar o termo mais usado para se referir ao surf brasileiros nos últimos quase 10 anos.

O movimento

Hoje, talvez seja mais fácil definir Brazilian Storm como a geração do título mundial. O conceito de geração, porém, está vinculado a cronologias históricas delimitadas por ano de nascimento. Por isso, preferimos chamar de um movimento baseado em determinada atitude.

Brasileiros sendo notados pelos gringos por surfarem muito é algo que aconteceu pela primeira vez muito antes do Brazilian Storm. A diferença, aqui, foi o volume de brasileiros surfando muito em um mesmo momento. E parece natural que o reconhecimento individual volte a ser o padrão daqui um tempo, quando os surfistas que originalmente fazem parte do movimento denominado Brazilian Storm estiverem fora do circuito. Hoje, eles continuam ativos e ainda em curva ascendente de evolução e resultados. Mas são os mesmos personagens.

Os novos nomes, que surgiram depois dos caçulas que estavam presentes naquele momento que originou o termo, alcançaram nível de disputa depois que aquele grupo determinou a nova realidade no tour. O que parece tornar inevitável que, daqui a alguns anos o termo não faça mais sentido se não há no horizonte tantos nomes promissores quanto existiam na época daquela histórica etapa de QS.

E precisa continuar?

Não vivemos uma situação idêntica, sequer semelhante, àquela que deu origem ao grupo que fez história como Brazilian Storm. Para ficar em um só exemplo bem prático, imagine que alguns deles chegaram a viajar com um câmbio próximo de R$ 1 para US$ 1.  Querer dar continuidade a algo sem as circunstâncias que a produziram é irracional. Se assim fosse, basta lembrar que décadas antes da tempestade, existiram os loucos. Brazilian Nuts também foi um termo cunhado pelos gringos para definir os primeiros surfistas brasileiro que se jogavam para o Hawaii em tempos muito diferentes dos de hoje para correr o circuito sem muita noção de nada, quando o surf como profissão sequer existia no Brasil.

Se fosse questão de continuidade, não seria necessário um novo termo. Talvez Brazilian Nuts teria servido também em 2011.

Também é fundamental reconhecer que nada se repete, e que o que gerou esse grupo tão forte de brasileiros no cenário externo foi um cenário interno que hoje não existe mais. Ainda que exista um programa de TV que já ultrapassa uma dezena de temporadas utilizando o termo comercialmente, isso não significa que todos os surfistas que aparecem na tela sejam parte daquele mesmo movimento, daquele mesma comportamento, daquela mesma atitude.

Esta não é uma análise simples porque requer conhecimento não só do cenário específico do surf no seu dia a dia como também dos contextos social, político e econômico em que cada geração está inserida. E se você quer entrar nesse debate, dá o play e vem conversar com a gente:

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