texto por Junior Faria
fotos por Raphael Tognini e WSL
O fim não veio em silêncio, nem por esgotamento súbito. Veio por escolha. Alejo Muniz encerrará sua carreira competitiva ao final da temporada 2026, com a última chamada marcada para o Lexus Pipe Masters, no Hawaii. Um encerramento simbólico para uma trajetória que nunca foi linear, mas sempre foi coerente. Nascido na Argentina e criado na praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas-SC, Alejo deixa o CT como um dos retratos mais claros de persistência que já passaram pela WSL. Um surfista moldado menos pela facilidade do talento e mais pela resiliência em permanecer quando tudo indicava saída.
Desde a estreia impactante em 2011, quando terminou a temporada como 10º do mundo, passando por vitórias marcantes(como contra Kelly Slater em Pipeline), até o legado construído nas divisões de acesso e o retorno improvável após oito anos fora da elite, Alejo atravessou o circuito com talento e garra.
“Meu momento mais marcante fora do circuito foi a minha reclassificação na etapa de Portugal. Acho que ali eu servi de exemplo para muita gente, tanto da nova geração quanto atletas que estão batalhando por um sonho que ainda não conquistaram. E não só para atletas. Eu recebi muitas mensagens de pessoas que não pegam onda, que não são atletas, mas que tinham algum projeto de trabalho ou pessoal. Foi como uma plataforma para incentivar as pessoas a não desistirem e a correrem atrás dos seus sonhos, a terem fé e serem trabalhadores disciplinados.”
Alejo tem como marca da sua trajetória não apenas grandes resultados, mas disciplina, comprometimento e profissionalismo como eixo. Ao se despedir, ele não encerra apenas uma carreira esportiva. Ele fecha um ciclo que ajudou a definir a Brazilian Storm e reafirma que, no surf de alto rendimento, resistir também é vencer.
Foto: Raphael Tognini/Flamboiar
Foto: Brent Bielmann/World Surf League
Resistir também é vencer
O ano de 2025 foi um período de reflexão e tensão pelos resultados no circuito de elite. Isso se acumulou nos intervalos, nas esperas, naquilo que não aparece na transmissão ao vivo. Para Alejo, o ano marcou a realização de um sonho antigo, o retorno ao CT, mas também expôs o custo de permanecer ali. Além disso, lesões importantes marcaram sua trajetória. Foram duas reconstruções ligamentares nos joelhos e uma cirurgia no ombro. Também na parte física, o preço foi ficando cada vez mais alto.
A temporada foi atravessada pela tensão constante do corte. Alejo passou por ele no limite, como último nome da lista, convivendo com a incerteza até o fim. Um estado raro para quem passou anos competindo em alto nível, mas que, segundo ele, se tornou um peso real. O fantasma de sair do CT passou a ser algo desconfortável, difícil de assimilar depois de toda sua trajetória como competidor.
“Acho que não vou sentir muita falta das derrotas. Sempre me cobrei demais.”
“Acho que pelo fato de me esforçar demais e estar sempre tentando fazer o meu melhor, quando eu perdia, era um peso muito grande, era algo muito forte. Muitas vezes isso acabou atrapalhando meus relacionamentos pessoais, minhas viagens, atrapalhava tudo. Eu nunca soube lidar muito bem com a derrota, então acho que não vou sentir falta dessa parte, do sentimento que a derrota me trazia, apesar de eu ter aprendido muito com ela e fazer parte da vida de um atleta.”
Foto: Raphael Tognini/Flamboiar
Foto: Thiago Diz/World Surf League
Escolher quando parar
Foi no meio desse processo que a ideia de parar começou a ganhar forma. Não como fuga, nem como frustração, mas como reflexão. Durante viagens com Adriano de Souza, agora atuando como técnico, Alejo começou a fazer perguntas diretas. Queria entender como alguém decide encerrar um ciclo. Por que parar. Quando parar. As respostas, segundo ele, batiam com com o que ele estava vivendo e o espelhamento foi inevitável.
A decisão amadureceu no método papel e caneta. Com os prós e contras organizados, o primeiro ponto foi a família. Mais tempo com o filho Martin, com a esposa Amanda, com a vida que acontece em casa e fora do calendário da WSL. Esse foi o fator número um. O segundo veio da performance. Alejo fala com a franqueza de quem sempre viveu do próprio rendimento. Mesmo treinando no limite físico, técnico e mental, passou a sentir que seu teto já não era o mesmo. Chegou no platô. Onde antes chegava inteiro, agora alcançava algo em torno de 70% ou 80% do que o circuito exige hoje. A leitura não veio carregada de drama, mas com uma aceitação que mostra o quanto Alejo está maduro e ciente da complexidade da vida de atleta de alto rendimento.
O terceiro ponto selou a decisão. Desde a primeira classificação para o CT, Alejo carregava um desejo silencioso: decidir o próprio fim. Não ser empurrado para fora. Não desaparecer aos poucos. Queria escolher quando parar.
“Eu não queria ser um atleta que o circuito empurrasse pra fora. Eu queria escolher quando parar. Esse foi um dos motivos de eu querer muito me reclassificar pro WT. Eu queria provar pra mim mesmo que conseguiria e poderia escolher quando parar.”
Foto: Ed Sloane/World Surf League
Surf forte, bem conectado e sem concessões
Sua trajetória de dentro do Tour foi marcada por constância e enfrentamento direto com o mais alto nível do esporte. Classificado para a elite em 2011, ele rapidamente se estabeleceu como um competidor completo, capaz de performar tanto em ondas de potência quanto em condições mais técnicas. Foi Top 10 no seu ano de estreia e ajudou a selar a Brazilian Storm como uma força dominante no circuito.
Entre 2011 e 2016, se manteve competitivo em uma era de transição, quando o surf passava por uma aceleração clara em termos de comprometimento, risco e exigência física. Mais do que resultados pontuais, Alejo construiu respeito dentro do CT pela forma como competia. Seu surf forte, bem conectado e sem concessões o colocava frequentemente nas fases finais em confrontos diretos com os principais nomes da sua geração. Não era um atleta de lampejos ocasionais, mas alguém preparado para sustentar baterias duras, evento após evento, em um calendário cada vez mais implacável.
O momento mais emblemático de sua carreira aconteceu no Hawaii. Em uma bateria decisiva, venceu Kelly Slater em Pipeline, o palco mais simbólico do surf mundial. A vitória teve peso histórico. Ao eliminar Slater naquele contexto, Alejo contribuiu diretamente para o desfecho do título mundial de Gabriel Medina, que se confirmou como o primeiro brasileiro campeão mundial. Não foi apenas um resultado individual. Foi uma interferência real na narrativa maior do esporte.
Foto: Tony Heff/World Surf League
Nossa conversa em Pipe
Pipeline sempre foi um lugar onde reputações são medidas com rigor. Vencer ali, ainda mais contra Slater, significava mais do que avançar na chave. Era uma afirmação de pertencimento. Para Alejo, aquela bateria sintetizou o que foi sua passagem pelo CT. Um competidor que talvez não tenha sido definido por troféus, mas que pela presença nos momentos que realmente moldam a história.
“O meu momento mais marcante no WT, inclusive você estava lá, foi em Pipeline quando o Gabriel foi campeão mundial. Eu perdi nas quartas de final, mas é o campeonato que a galera mais lembra da minha carreira, muito mais que qualquer outra vitória. “Por eu ter vencido o Kelly, o Mick Fanning, ainda mais em Pipe, foi uma montanha russa de sentimentos.
Ao mesmo tempo que eu tinha caído do circuito eu tinha influenciado a confirmação do título mundial de um amigo (Gabriel Medina), que foi também o primeiro título de um brasileiro. E eu nunca vou me esquecer de uma frase que você falou pra mim lá em Pipe. Eu estava puto, triste porque eu não tinha me reclassificado. Eu lá indignado e você olhou pra mim e falou: Cara, tu não tem noção o que tu fez? Isso vai representar muito pra tua carreira. Você fez parte do primeiro título mundial pro Brasil, você não tem noção disso ainda.” E é verdade cara, foi um marco na minha carreira e foi muito importante.”
Esse momento descrito pelo Alejo aconteceu na areia da praia, em Pipeline. Nós estávamos entre amigos, acompanhando as baterias finais daquela etapa histórica do Pipe Master. A história do surf se desenrolava bem na nossa frente, mas eu sabia muito bem o quanto Alejo estava sofrendo naquele momento. Fomos parceiros de viagem no circuito por mais de 10 anos e desenvolvemos uma amizade muito próxima. Me doía vê-lo naquela situação e procurei confortá-lo de uma forma que não o deixaria ainda mais puto da cara. Eu conhecia muito bem a fera. Foi um momento muito especial que eu lembro com carinho pelo valor da amizade, mais do que do contexto histórico do surf.
Foto: Tony Heff/World Surf League
O legado de Alejo
“Acho que o que eu mais vou sentir falta da vida de competidor vão ser as viagens com os meus amigos. A gente viaja para as melhores ondas do mundo e entre amigos, isso é muito especial. Além disso, eu amo competir e sei lidar com a pressão, isso sempre me ajudou. Eu adoro sentir aquele frio na barriga. Vou sentir falta disso também.”
2026 será um ano de comemoração. Uma despedida digna dos grandes ídolos. Alejo Muniz fará sua volta olímpica pelo mundo, passando pelas ondas que elevaram seu nome ao ponto mais alto do esporte que ele escolheu para dedicar sua vida. E quanta dedicação. Como um bom e aguerrido argentino-brazuca, ele deixou tudo no mar. Deu tudo de si, sem reservas. Alejo é daqueles atletas que representam o espírito de campeão. Pouco importa o resultado, ele deu o seu melhor sempre.
Minha última pergunta ao Alejo durante a entrevista foi: “Você encerra sua carreira de maneira irretocável. Como você resume sua jornada como atleta?”
“Penso nisso desde o momento que eu tomei a decisão de parar. Eu posso dizer que realizei todos os todos os sonhos e objetivos que eu tinha. Eu alcancei, cara. Claro que quando eu era mais novo, tinha o sonho de ser campeão mundial e ainda tenho um sonho de ganhar uma etapa do WT, mas eu acho que a minha carreira foi completa. Do início ao fim, eu venci os campos que eu queria vencer. Cheguei no WT, que era o maior sonho que eu tinha. Mas eu acho que no fim, hoje vendo tudo o que eu passei, a Brazilian Storm deixou um legado e cada atleta dessa geração deixou uma marca própria. Uns com títulos, outros com performances ou algum momento importante. Eu acho que deixei a minha marca como um exemplo de atleta, do cara que foi esforçado, do cara que foi disciplinado, do cara que não baixou os braços.”
“Minha marca é resiliência, disciplina e fé. Isso foi o que moldou a minha carreira depois de tantas lesões e me reclassificar depois de oito anos, algo que nunca havia acontecido dentro do circuito mundial. Quando eu parei pra pensar sobre isso e cheguei a essa conclusão, senti muita gratidão e felicidade. Porque são os conceitos base que eu gostaria de deixar pro meu filho. Quando perguntarem pra ele quem foi o pai dele, ele vai poder responder que ele foi muito resiliente, muito trabalhador, disciplinado e tinha muita fé. Então acho que é a minha contribuição para a nova geração.”
texto por Junior Faria
fotos por Raphael Tognini e WSL
O fim não veio em silêncio, nem por esgotamento súbito. Veio por escolha. Alejo Muniz encerrará sua carreira competitiva ao final da temporada 2026, com a última chamada marcada para o Lexus Pipe Masters, no Hawaii. Um encerramento simbólico para uma trajetória que nunca foi linear, mas sempre foi coerente. Nascido na Argentina e criado na praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas-SC, Alejo deixa o CT como um dos retratos mais claros de persistência que já passaram pela WSL. Um surfista moldado menos pela facilidade do talento e mais pela resiliência em permanecer quando tudo indicava saída.
Desde a estreia impactante em 2011, quando terminou a temporada como 10º do mundo, passando por vitórias marcantes(como contra Kelly Slater em Pipeline), até o legado construído nas divisões de acesso e o retorno improvável após oito anos fora da elite, Alejo atravessou o circuito com talento e garra.
“Meu momento mais marcante fora do circuito foi a minha reclassificação na etapa de Portugal. Acho que ali eu servi de exemplo para muita gente, tanto da nova geração quanto atletas que estão batalhando por um sonho que ainda não conquistaram. E não só para atletas. Eu recebi muitas mensagens de pessoas que não pegam onda, que não são atletas, mas que tinham algum projeto de trabalho ou pessoal. Foi como uma plataforma para incentivar as pessoas a não desistirem e a correrem atrás dos seus sonhos, a terem fé e serem trabalhadores disciplinados.”
Alejo tem como marca da sua trajetória não apenas grandes resultados, mas disciplina, comprometimento e profissionalismo como eixo. Ao se despedir, ele não encerra apenas uma carreira esportiva. Ele fecha um ciclo que ajudou a definir a Brazilian Storm e reafirma que, no surf de alto rendimento, resistir também é vencer.
Foto: Raphael Tognini/Flamboiar
Foto: Thiago Diz/World Surf League
Resistir também é vencer
O ano de 2025 foi um período de reflexão e tensão pelos resultados no circuito de elite. Isso se acumulou nos intervalos, nas esperas, naquilo que não aparece na transmissão ao vivo. Para Alejo, o ano marcou a realização de um sonho antigo, o retorno ao CT, mas também expôs o custo de permanecer ali. Além disso, lesões importantes marcaram sua trajetória. Foram duas reconstruções ligamentares nos joelhos e uma cirurgia no ombro. Também na parte física, o preço foi ficando cada vez mais alto.
A temporada foi atravessada pela tensão constante do corte. Alejo passou por ele no limite, como último nome da lista, convivendo com a incerteza até o fim. Um estado raro para quem passou anos competindo em alto nível, mas que, segundo ele, se tornou um peso real. O fantasma de sair do CT passou a ser algo desconfortável, difícil de assimilar depois de toda sua trajetória como competidor.
“Acho que não vou sentir muita falta das derrotas. Sempre me cobrei demais.
“Acho que pelo fato de me esforçar demais e estar sempre tentando fazer o meu melhor, quando eu perdia, era um peso muito grande, era algo muito forte. Muitas vezes isso acabou atrapalhando meus relacionamentos pessoais, minhas viagens, atrapalhava tudo. Eu nunca soube lidar muito bem com a derrota, então acho que não vou sentir falta dessa parte, do sentimento que a derrota me trazia, apesar de eu ter aprendido muito com ela e fazer parte da vida de um atleta.”
Foto: Raphael Tognini/Flamboiar
Escolher quando parar
Foi no meio desse processo que a ideia de parar começou a ganhar forma. Não como fuga, nem como frustração, mas como reflexão. Durante viagens com Adriano de Souza, agora atuando como técnico, Alejo começou a fazer perguntas diretas. Queria entender como alguém decide encerrar um ciclo. Por que parar. Quando parar. As respostas, segundo ele, batiam com com o que ele estava vivendo e o espelhamento foi inevitável.
A decisão amadureceu no método papel e caneta. Com os prós e contras organizados, o primeiro ponto foi a família. Mais tempo com o filho Martin, com a esposa Amanda, com a vida que acontece em casa e fora do calendário da WSL. Esse foi o fator número um. O segundo veio da performance. Alejo fala com a franqueza de quem sempre viveu do próprio rendimento. Mesmo treinando no limite físico, técnico e mental, passou a sentir que seu teto já não era o mesmo. Chegou no platô. Onde antes chegava inteiro, agora alcançava algo em torno de 70% ou 80% do que o circuito exige hoje. A leitura não veio carregada de drama, mas com uma aceitação que mostra o quanto Alejo está maduro e ciente da complexidade da vida de atleta de alto rendimento.
O terceiro ponto selou a decisão. Desde a primeira classificação para o CT, Alejo carregava um desejo silencioso: decidir o próprio fim. Não ser empurrado para fora. Não desaparecer aos poucos. Queria escolher quando parar.
“Eu não queria ser um atleta que o circuito empurrasse pra fora. Eu queria escolher quando parar. Esse foi um dos motivos de eu querer muito me reclassificar pro WT. Eu queria provar pra mim mesmo que conseguiria e poderia escolher quando parar.”
Foto: Ed Sloane/World Surf League
Surf forte, bem conectado e sem concessões
Sua trajetória de dentro do Tour foi marcada por constância e enfrentamento direto com o mais alto nível do esporte. Classificado para a elite em 2011, ele rapidamente se estabeleceu como um competidor completo, capaz de performar tanto em ondas de potência quanto em condições mais técnicas. Foi Top 10 no seu ano de estreia e ajudou a selar a Brazilian Storm como uma força dominante no circuito. Entre 2011 e 2016, se manteve competitivo em uma era de transição, quando o surf passava por uma aceleração clara em termos de comprometimento, risco e exigência física.
Mais do que resultados pontuais, Alejo construiu respeito dentro do CT pela forma como competia. Seu surf forte, bem conectado e sem concessões o colocava frequentemente nas fases finais em confrontos diretos com os principais nomes da sua geração. Não era um atleta de lampejos ocasionais, mas alguém preparado para sustentar baterias duras, evento após evento, em um calendário cada vez mais implacável.
O momento mais emblemático de sua carreira aconteceu no Hawaii. Em uma bateria decisiva, venceu Kelly Slater em Pipeline, o palco mais simbólico do surf mundial. A vitória teve peso histórico. Ao eliminar Slater naquele contexto, Alejo contribuiu diretamente para o desfecho do título mundial de Gabriel Medina, que se confirmou como o primeiro brasileiro campeão mundial. Não foi apenas um resultado individual. Foi uma interferência real na narrativa maior do esporte.
Foto: Tony Heff/World Surf League
Nossa conversa em Pipe
Pipeline sempre foi um lugar onde reputações são medidas com rigor. Vencer ali, ainda mais contra Slater, significava mais do que avançar na chave. Era uma afirmação de pertencimento. Para Alejo, aquela bateria sintetizou o que foi sua passagem pelo CT. Um competidor que talvez não tenha sido definido por troféus, mas que pela presença nos momentos que realmente moldam a história.
“O meu momento mais marcante no WT, inclusive você estava lá, foi em Pipeline quando o Gabriel foi campeão mundial. Eu perdi nas quartas de final, mas é o campeonato que a galera mais lembra da minha carreira, muito mais que qualquer outra vitória. Por eu ter vencido o Kelly, o Mick Fanning, ainda mais em Pipe, foi uma montanha russa de sentimentos. Ao mesmo tempo que eu tinha caído do circuito eu tinha influenciado a confirmação do título mundial de um amigo (Gabriel Medina), que foi também o primeiro título de um brasileiro. E eu nunca vou me esquecer de uma frase que você falou pra mim lá em Pipe. Eu estava puto, triste porque eu não tinha me reclassificado. Eu lá indignado e você olhou pra mim e falou: Cara, tu não tem noção o que tu fez? Isso vai representar muito pra tua carreira. Você fez parte do primeiro título mundial pro Brasil, você não tem noção disso ainda.” E é verdade cara, foi um marco na minha carreira e foi muito importante.”
Esse momento descrito pelo Alejo aconteceu na areia da praia, em Pipeline. Nós estávamos entre amigos, acompanhando as baterias finais daquela etapa histórica do Pipe Master. A história do surf se desenrolava bem na nossa frente, mas eu sabia muito bem o quanto Alejo estava sofrendo naquele momento. Fomos parceiros de viagem no circuito por mais de 10 anos e desenvolvemos uma amizade muito próxima. Me doía vê-lo naquela situação e procurei confortá-lo de uma forma que não o deixaria ainda mais puto da cara. Eu conhecia muito bem a fera. Foi um momento muito especial que eu lembro com carinho pelo valor da amizade, mais do que do contexto histórico do surf.
Foto: Brent Bielmann/World Surf League
O legado de Alejo
“Acho que o que eu mais vou sentir falta da vida de competidor vão ser as viagens com os meus amigos. A gente viaja para as melhores ondas do mundo e entre amigos, isso é muito especial. Além disso, eu amo competir e sei lidar com a pressão, isso sempre me ajudou. Eu adoro sentir aquele frio na barriga. Vou sentir falta disso também.”
2026 será um ano de comemoração. Uma despedida digna dos grandes ídolos. Alejo Muniz fará sua volta olímpica pelo mundo, passando pelas ondas que elevaram seu nome ao ponto mais alto do esporte que ele escolheu para dedicar sua vida. E quanta dedicação. Como um bom e aguerrido argentino-brazuca, ele deixou tudo no mar. Deu tudo de si, sem reservas. Alejo é daqueles atletas que representam o espírito de campeão. Pouco importa o resultado, ele deu o seu melhor sempre.
Minha última pergunta ao Alejo durante a entrevista foi: “Você encerra sua carreira de maneira irretocável. Como você resume sua jornada como atleta?”
“Penso nisso desde o momento que eu tomei a decisão de parar. Eu posso dizer que realizei todos os todos os sonhos e objetivos que eu tinha. Eu alcancei, cara. Claro que quando eu era mais novo, tinha o sonho de ser campeão mundial e ainda tenho um sonho de ganhar uma etapa do WT, mas eu acho que a minha carreira foi completa. Do início ao fim, eu venci os campos que eu queria vencer. Cheguei no WT, que era o maior sonho que eu tinha. Mas eu acho que no fim, hoje vendo tudo o que eu passei, a Brazilian Storm deixou um legado e cada atleta dessa geração deixou uma marca própria. Uns com títulos, outros com performances ou algum momento importante. Eu acho que deixei a minha marca como um exemplo de atleta, do cara que foi esforçado, do cara que foi disciplinado, do cara que não baixou os braços. Minha marca é resiliência, disciplina e fé. Isso foi o que moldou a minha carreira depois de tantas lesões e me reclassificar depois de oito anos, algo que nunca havia acontecido dentro do circuito mundial. Quando eu parei pra pensar sobre isso e cheguei a essa conclusão, senti muita gratidão e felicidade. Porque são os conceitos base que eu gostaria de deixar pro meu filho. Quando perguntarem pra ele quem foi o pai dele, ele vai poder responder que ele foi muito resiliente, muito trabalhador, disciplinado e tinha muita fé. Então acho que é a minha contribuição para a nova geração.”
Foto: Tony Heff/World Surf League