Texto por Carolina Bridi
Fotos de ação por Raphael Tognini
Fotos de arquivo por Bruno Zanin
– Oi?
– Oi? Tô ouvindo bem.
– Ela tá dormindo?
– Não, ela tá acordada e eu tô tentando fazer ela dormir.
Lia acabou de chegar. Tinha exatos um mês e cinco dias quando dormiu ouvindo a voz do pai contando uma historinha. Ali, de dentro do colo de Miguel, a mais nova das quatro meninas dormiu e acordou no intervalo de uma hora e meia, enquanto Luna, Serena e Flora ouviam música, brincavam ou andavam pela casa com sua medalha do jiu-jitsu, não necessariamente nessa ordem.
Essa não é a primeira vez que entrevisto Miguel com as meninas ao redor. Um pai é um pai, afinal.
Esta é, na verdade, a quinta conversa que tivemos desde março de 2023, quando tudo mudou. E é justamente essa historinha que vamos te contar agora.
A Fórmula
14 de março de 2023.
Miguel Pupo vinha de um ótimo ano. Terminou 2022 em 6º no ranking do CT, exatamente na porta do Final 5, e começou 23 embalado. Vinha numa crescente tanto de confiança quanto da fórmula. “A fórmula que eu fiquei 10 anos para encontrar.”
Em 22, encontrou. Mas 23 foi um soco no estômago. Era ano de classificação olímpica. Ele tinha acabado de vencer em Teahupoo, que seria o palco dos Jogos.
“Cresce aquele sonho dentro de você. Pô, será que eu demorei 10 anos pra ter esse conto de fadas realmente acontecendo? Será que é isso que vai acontecer mesmo?”
A resposta veio naquele 14 de março de 2023 como uma rasteira. Às vezes você acha que é destino, mas ele viu mais como um acidente de trabalho mesmo. Uma coisa que pode acontecer a qualquer instante.
Sua última lesão séria tinha acontecido em 2013. Se havia um lado positivo, ele encontrou: “demorei 10 anos para me lesionar, sabe? 10 anos em alto rendimento, 10 anos… Milhares de chances, provavelmente, que eu tive de me lesionar e não me lesionei.”
E então, 10 anos depois, aconteceu de novo, levando por água abaixo em poucos segundos todo um novo sonho que tinha acabado de nascer.
Um atleta sente quando é sério. Em Portugal, naquele momento, Miguel já tinha noção de que não seriam só algumas semanas. Veio a cirurgia. “Eles invadem seu corpo. É uma brutalidade muito forte. Parafuso, fura osso, faz um monte de coisa.” Dali pra frente, é que começa o processo de recuperação. E nesse caso, foram cinco meses até voltar a surfar.
Cinco meses fisicamente e emocionalmente muito intensos. Provavelmente os mais difíceis da carreira de Miguel. Quando voltou ao mar, já não se sentia o mesmo de antes. Mas no último trimestre daquele ano, uma trip para uma onda inesperada o levou ao primeiro ápice pós-lesão.
Ele não estava bem quando Palmas quebrou clássico. Amigdalite aguda, queda na imunidade, madrugada no hospital. Nada disso segurou aquele velho Miguel nas sessões que foram eternizadas no Vira-Lata de Raça, filme de Bruno Zanin que vinha sendo gravado em diferentes picos do mundo, e que teve naquela trip, o desfecho perfeito.
Um dos primeiros surfes de tubo que Miguel fez pós-lesão gerou uma catarse que explodiu em choro no banho e um áudio emocionado para Zanin contando que, pela primeira vez, ele se sentia o mesmo novamente.
O mesmo, mas nem tanto
Analisando hoje, Miguel compreende que ali ele voltou a se sentir o mesmo, mas não inteiro. “Eu demorei pra assimilar isso. Naquele dia de Palmas, eu me senti eu aqui (apontando para a cabeça). Mas aqui (apontando para o corpo) ainda não estava conectado.”
Miguel perdeu a sensibilidade de alguns movimentos do pé. Sentia muita dor e teve diversas complicações pós-cirurgia sobre as quais não sentia conforto para falar na época. Sem sensibilidade nos dedos, via diferença na hora de levantar na prancha. “Meu pé esquerdo raspava na prancha, então ficava algumas frações de segundos mais lento que o pé direito.”
São pequenos ajustes que fazem a diferença no surf de alta performance.
Miguel já tinha a vaga garantida no CT em 2024 como wildcard por lesão. Mesmo assim, correu algumas etapas do Challenger naquele ano para entender como estava seu nível competitivo e retomar o ritmo das baterias.
Levou um QS 1000 na piscina, e ver que podia vencer um evento no mesmo ano em que se lesionou entregou de volta a garra que o fez se entender novamente como um competidor.
Vieram então bons resultados em Saquarema, boas baterias, notas altas. E aí, então, 24…
Na mente, a ideia de voltar ao surfista que era antes. Fisicamente, porém, nada estava perfeito. Miguel foi sentindo durante as primeiras etapas de 2024 todos aqueles pequenos ajustes. “É como se fosse a Fórmula 1. Entrei com meu carro faltando uns parafusos.”
Foi no começo do ano também que voltou a usar as JS. Apesar de ter surfado com elas toda a carreira de amador, dos 13 aos 18 anos, havia a adaptação natural que toda troca de equipamento exige. Foi do ajuste do corpo ao ajuste das pranchas.
E então começou a guerra. Corte, cinco etapas, não pode errar. Miguel voltou com um bom seeding, o que o levou a boas oportunidades. Mas algo não funcionou. “Eu acabei errando por competir mal.”
Na bateria de Pipe contra Imaikalani deVault, teve a prioridade e a onda pra vencer a bateria, mas errou. “Eu demorei quase um ano pra esquecer essa bateria. Às vezes eu estava no banho e eu pensava: ‘cara, aquela onda contra o Imai’.”
Aquele era só o começo de uma temporada que culminou em um dos momentos de maior emoção nos bastidores da área de atletas, quando Miguel e Samuel caíram na mesma bateria eliminatória em Margaret River. Quem perdesse, estava fora do CT.
Miguel enxergou aquele momento como o privilégio de disputar com seu próprio irmão no topo do mundo, mas ver a dor de Samuel ao eliminá-lo, não foi nada fácil. No final das contas, os dois saíram daquele evento direto para o Challenger.
Tudo de novo, outra vez
De volta ao circuito de acesso, dois pensamentos pesavam em Miguel.
“Eu sei que eu não sou mais tão novo, né? Com 33, não tenho mais o gás dos meninos. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que no Challenger você pode errar pouco. Prevalece a experiência.”
O plano era começar bem, mas perder no primeiro round em Snapper Rocks foi um banho de água fria. O pé já voltava a funcionar melhor, Miguel estava bem encaixado com as pranchas novas. Mesmo assim, tudo parecia dar errado.
Já eram quase dois meses na Austrália. Em Narrabeen, o estresse e a saudade de casa tomaram conta. “Eu passei o campeonato inteiro sem dormir. Lembro que fechava o olho e ficava de olho fechado a noite inteira, mas não entrava no sono. Você não descansa.”
Sem raciocinar, apenas ia, e acabou fazendo semifinal. “Até hoje, não entendo. Até entendo porque a gente sabe competir, né? Usei muitas das estratégias, mas se me perguntar se eu tava bem pra fazer um terceiro, eu não tava. Foi meio que no automático, na experiência, fazendo as notas certas na hora certa.”
Dali Miguel retomou a tranquilidade que precisava pra continuar o ano e fazer os resultados que precisava para voltar ao CT. Já sentia o físico bem melhor, o pé funcionava bem de novo e a dor estava passando.
A partir do momento em que o corpo mudou, os resultados começaram a vir. Fez quartas em Huntington e em Ericeira. De novo, não sem emoção. Antes de embarcar para Portugal, uma pneumonia. Mais 15 dias sem surfar. Bruna Grano, sua fisioterapeuta, foi junto para continuar tratando o pulmão. Voltou a surfar dois dias antes do evento e entrava nas baterias sabendo que não podia pegar muita onda porque não tinha o gás necessário ainda. Na primeira bateria, pegou a primeira e a última onda. Certeiro. Um seis e um oito. Tudo que precisava para passar.
“Falei: ‘é isso, cara. Duas, três ondas, vai do jeito que dá, e pontuando nessa experiência de sempre pegar a onda certa, as minhas ondas boas. O Adriano (de Souza) na minha mente, falando bastante disso. E foi assim: mais um quinto.”
A essa altura Miguel já estava em terceiro ou quarto no ranking. Viu o irmão vencer a etapa, o Alejo (Muniz) ficar em terceiro, o Ed (Groggia) ficando bem. Começa ali uma felicidade geral, de todos indo bem, que contamina e deixa tudo mais leve.
Veio Saquarema, a última etapa, e de acordo com suas matemáticas, ele sabia que já estava praticamente garantido. Mas, como é o Miguel, o descanso só veio quando viu todos classificados.
“Aí, sim, eu pude relaxar.” Miguel nunca reclamou de cansaço. Mas quando 2024 terminou,
Aquele Miguel voltou
Percebendo que em 2024 tinha feito uma pré-temporada muito longa, e depois de adicionar toda sorte de acontecimentos surreais durante o ano, Miguel quis ajustar a forma como começaria 2025.
Com a oportunidade na mão, reduziu a pré-temporada de três para um mês e, assim, não chegou exausto ao CT esse ano como fez no ano passado. Vem dando certo. Logo no primeiro evento, em Pipe, um quinto lugar, emendando outro quinto na piscina de Abu Dhabi.
Este é o primeiro ano com a companhia do técnico Adriano de Souza em 100% das viagens. O trabalho antes acontecia mais online, em conversas na sala de casa, nos momentos pré-evento. “Estar junto é diferente porque ele entende muito bem o que se passa na sua cabeça nos exatos momentos em que ele viveu tudo aquilo também, talvez mais intensamente do que eu vivi.”
É Mineiro que Miguel procura para conversar sobre motivação. Apesar de serem muito diferentes, é nestas conversas que encontra um norte sobre o que pensar nas horas certas. Quando Mineiro conta que pensava na casa que queria comprar, Miguel, que não se vê exatamente nesse momento, tenta entender o que pode ser a cenoura que persegue.
“Não é a grana que me leva lá, é o competir em si, é mostrar que eu sou bom. O que me faz realmente sair da cama é a competição, não é o dinheiro, não é o patrocínio, é estar naquele momento, precisando daquela nota.”
Ao descobrir que são esses momentos que o movem, Miguel talvez não só tenha reencontrado a fórmula – aquela, de 2022, como, com a ajuda de Adriano, tenha encontrado o Miguel de 2025. Aquele que tem sido frequentemente apontado como capitão.
E aí eu pergunto: em um esporte individual, faz sentido a figura de um capitão?
Quando o tempo que se passa longe de casa é tão longo que fica fácil considerar seus competidores uma família, talvez faça sentido.
De certa forma, Miguel é o ponto onde muitos surfistas brasileiros do tour encontram um ponto de segurança emocional. Não só porque é um dos mais velhos, mas porque as relações ali existem desde que eram crianças. Um exemplo? Foi Miguel que levou Gabriel Medina pela primeira vez ao Hawaii. “Foi responsabilidade minha. Eu saí de casa, uma criança levando outra criança”, lembra. Não por acaso Gabriel sempre o viu como um irmão mais velho. Filipe Toledo também tem o respeito de quem quer ouvir quem está há mais tempo por ali.
Para Miguel, essa leitura que as pessoas têm feito de capitão é recebida como sinal de que sua figura passa confiança, de que alguém que é justo para estar nessa posição.
“É algo que se conquista e eu fico feliz de passar a imagem de uma pessoa confiável e justa. Se alguém um dia perguntar minha opinião, não vou pensar só em mim, mas em todo mundo. Eles enxergam que quando eu torço por eles é algo genuíno.” Histórias de quando brincavam de contar caminhão na estrada, de futebol no corredor, de quando as festas de aniversário tinham salgadinho contado, e não shows promovidos por marcas. Acha natural também herdar um pouco isso do próprio Adriano, com quem a parceria veio de uma amizade construída lá atrás com base na admiração.
A verdade é que o respeito vem de muito tempo. Sempre foi cotado como representante dos atletas, depois dos brasileiros. Até como representante do surf na comissão dos atletas do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
“Tenho muito pra entregar ainda com a lycra. Talvez assim que eu me sentir satisfeito com tudo o que eu fiz como atleta, aí sim vou entrar de cabeça nessas posições e começar a ser mais ativo politicamente.”
daqui pra frente
O ano começou bem, as coisas estão fluindo.
“Ainda bem que, naqueles momentos que parecia que não ia dar, eu continuei acreditando. Agora a confiança tá lá em cima, surfando de lycra vermelha, algo que eu sempre sonhei, ser top seed, estar entre os 10.”
Voltou ao rumo que estava em 2023. “Surf todo mundo no CT tem. É muito mais a cabeça, é tomar as decisões certas na hora certa, e um pouco de sorte também.”
Tem que ter, e esse ano ele acha que a sorte tem lhe sorrido várias vezes, como na bateria com Italo Ferreira em Pipe. O mar estava meio acordando naquele dia, e assim que pisaram na água, as ondas vieram com vontade.
É neste tipo de bateria que Miguel quer estar.
“Eu vejo isso como sorte também. Apesar de eu ter perdido a bateria, o mar sorriu pra gente. Ele sente, né, e fala: esses aí tão querendo, então, vou mandar um monte de onda.”
“São essas batalhas que eu quero. Estar brigando com quem tá lá em cima, porque é assim que a gente aprende.”
Hoje, se vê exatamente onde queria. Construiu a imagem de um cara sólido. Foi numa bateria contra Seth Moniz que percebeu isso. O havaiano começou a surfar no tudo ou nada porque sabia que se cometesse algum erro, Miguel venceria.
E assim tem sido desde então. “Conquistei durante o ano esse respeito, de ser mais temido do que eu era, talvez, nos outros 10 anos. O pessoal falava: ‘o Miguel é bom, é perigoso, mas ele sempre dá uns moles’. Hoje, não.”
Mais uma influência do Adriano. Se der mole, o cara vai ganhar. “Tenho vencido as baterias sempre por pouco. É bem parecido com o que o Adriano fazia na época. O cara somava 13, ele somava 13,20.” E é isso que eles vêm fazendo. Agora quer, obviamente, superar 2022, quando esteve a 80 pontos do Finals.
Se naquele 14 de março de 2023 lhe contassem a posição em que estaria hoje, ele não acreditaria. Talvez por ter se visto subindo a ladeira e despencando em seguida. Talvez por ser um ano pré-olímpico. Talvez por ter se sentido um pouco sozinho.
Talvez por ter visto o que já parecia grave ser ainda mais grave do que imaginava. Talvez por ter entrado numa cirurgia para fazer um ligamento e ter saído com uma reconstrução completa do tornozelo.
Talvez por ter perdido a sensibilidade. Talvez por ter se sentido assustado.
Mas como o Miguel é o Miguel, há sempre um lado bom. Além de não ter se visto um minuto sequer desamparado por patrocinadores, viver mais tempo em casa com as mulheres da sua vida segurou tanto sua onda quanto os braços dele agora seguram Lia, que acaba de acordar do soninho. Tranquila, no colo de quem agora conhece seu próprio talento e seu próprio caminho.
Publicado originalmente na edição impressa nº 03 da Revista Flamboiar, Inverno/2025.
Para saber mais, clique aqui
Miguel começou a temporada 2026 do CT com a vitória da tradicional etapa de Bells Beach. Com isso, hoje está no topo do ranking mundial e veste a lycra amarela pela primeira vez na carreira.
Nesta quinta-feira, 16 de abril, começa a segunda etapa, em Margareth River. Assista ao vivo nos canais da WSL.
Texto por Carolina Bridi
Fotos de ação por Raphael Tognini
Fotos de arquivo por Bruno Zanin
– Oi?
– Oi? Tô ouvindo bem.
– Ela tá dormindo?
– Não, ela tá acordada e eu tô tentando fazer ela dormir.
Lia acabou de chegar. Tinha exatos um mês e cinco dias quando dormiu ouvindo a voz do pai contando uma historinha. Ali, de dentro do colo de Miguel, a mais nova das quatro meninas dormiu e acordou no intervalo de uma hora e meia, enquanto Luna, Serena e Flora ouviam música, brincavam ou andavam pela casa com sua medalha do jiu-jitsu, não necessariamente nessa ordem.
Essa não é a primeira vez que entrevisto Miguel com as meninas ao redor. Um pai é um pai, afinal.
Esta é, na verdade, a quinta conversa que tivemos desde março de 2023, quando tudo mudou. E é justamente essa historinha que vamos te contar agora.
A Fórmula
14 de março de 2023.
Miguel Pupo vinha de um ótimo ano. Terminou 2022 em 6º no ranking do CT, exatamente na porta do Final 5, e começou 23 embalado. Vinha numa crescente tanto de confiança quanto da fórmula. “A fórmula que eu fiquei 10 anos para encontrar.”
Em 22, encontrou. Mas 23 foi um soco no estômago. Era ano de classificação olímpica. Ele tinha acabado de vencer em Teahupoo, que seria o palco dos Jogos.
“Cresce aquele sonho dentro de você. Pô, será que eu demorei 10 anos pra ter esse conto de fadas realmente acontecendo? Será que é isso que vai acontecer mesmo?”
A resposta veio naquele 14 de março de 2023 como uma rasteira. Às vezes você acha que é destino, mas ele viu mais como um acidente de trabalho mesmo. Uma coisa que pode acontecer a qualquer instante.
Sua última lesão séria tinha acontecido em 2013. Se havia um lado positivo, ele encontrou:
“demorei 10 anos para me lesionar, sabe? 10 anos em alto rendimento, 10 anos… Milhares de chances, provavelmente, que eu tive de me lesionar e não me lesionei.”
E então, 10 anos depois, aconteceu de novo, levando por água abaixo em poucos segundos todo um novo sonho que tinha acabado de nascer.
Um atleta sente quando é sério. Em Portugal, naquele momento, Miguel já tinha noção de que não seriam só algumas semanas. Veio a cirurgia. “Eles invadem seu corpo. É uma brutalidade muito forte. Parafuso, fura osso, faz um monte de coisa.” Dali pra frente, é que começa o processo de recuperação. E nesse caso, foram cinco meses até voltar a surfar.
Cinco meses fisicamente e emocionalmente muito intensos. Provavelmente os mais difíceis da carreira de Miguel. Quando voltou ao mar, já não se sentia o mesmo de antes. Mas no último trimestre daquele ano, uma trip para uma onda inesperada o levou ao primeiro ápice pós-lesão.
Ele não estava bem quando Palmas quebrou clássico. Amigdalite aguda, queda na imunidade, madrugada no hospital. Nada disso segurou aquele velho Miguel nas sessões que foram eternizadas no Vira-Lata de Raça, filme de Bruno Zanin que vinha sendo gravado em diferentes picos do mundo, e que teve naquela trip, o desfecho perfeito.
Um dos primeiros surfes de tubo que Miguel fez pós-lesão gerou uma catarse que explodiu em choro no banho e um áudio emocionado para Zanin contando que, pela primeira vez, ele se sentia o mesmo novamente.
O mesmo, mas nem tanto
Analisando hoje, Miguel compreende que ali ele voltou a se sentir o mesmo, mas não inteiro. “Eu demorei pra assimilar isso. Naquele dia de Palmas, eu me senti eu aqui (apontando para a cabeça). Mas aqui (apontando para o corpo) ainda não estava conectado.”
Miguel perdeu a sensibilidade de alguns movimentos do pé. Sentia muita dor e teve diversas complicações pós-cirurgia sobre as quais não sentia conforto para falar na época. Sem sensibilidade nos dedos, via diferença na hora de levantar na prancha. “Meu pé esquerdo raspava na prancha, então ficava algumas frações de segundos mais lento que o pé direito.”
São pequenos ajustes que fazem a diferença no surf de alta performance.
Miguel já tinha a vaga garantida no CT em 2024 como wildcard por lesão. Mesmo assim, correu algumas etapas do Challenger naquele ano para entender como estava seu nível competitivo e retomar o ritmo das baterias.
Levou um QS 1000 na piscina, e ver que podia vencer um evento no mesmo ano em que se lesionou entregou de volta a garra que o fez se entender novamente como um competidor.
Vieram então bons resultados em Saquarema, boas baterias, notas altas. E aí, então, 24…
Na mente, a ideia de voltar ao surfista que era antes. Fisicamente, porém, nada estava perfeito. Miguel foi sentindo durante as primeiras etapas de 2024 todos aqueles pequenos ajustes. “É como se fosse a Fórmula 1. Entrei com meu carro faltando uns parafusos.”
Foi no começo do ano também que voltou a usar as JS. Apesar de ter surfado com elas toda a carreira de amador, dos 13 aos 18 anos, havia a adaptação natural que toda troca de equipamento exige. Foi do ajuste do corpo ao ajuste das pranchas.
E então começou a guerra. Corte, cinco etapas, não pode errar. Miguel voltou com um bom seeding, o que o levou a boas oportunidades. Mas algo não funcionou. “Eu acabei errando por competir mal.”
Na bateria de Pipe contra Imaikalani deVault, teve a prioridade e a onda pra vencer a bateria, mas errou. “Eu demorei quase um ano pra esquecer essa bateria. Às vezes eu estava no banho e eu pensava: ‘cara, aquela onda contra o Imai’.”
Aquele era só o começo de uma temporada que culminou em um dos momentos de maior emoção nos bastidores da área de atletas, quando Miguel e Samuel caíram na mesma bateria eliminatória em Margaret River. Quem perdesse, estava fora do CT.
Miguel enxergou aquele momento como o privilégio de disputar com seu próprio irmão no topo do mundo, mas ver a dor de Samuel ao eliminá-lo, não foi nada fácil. No final das contas, os dois saíram daquele evento direto para o Challenger.
Tudo de novo, outra vez
De volta ao circuito de acesso, dois pensamentos pesavam em Miguel.
“Eu sei que eu não sou mais tão novo, né? Com 33, não tenho mais o gás dos meninos. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que no Challenger você pode errar pouco. Prevalece a experiência.”
O plano era começar bem, mas perder no primeiro round em Snapper Rocks foi um banho de água fria. O pé já voltava a funcionar melhor, Miguel estava bem encaixado com as pranchas novas. Mesmo assim, tudo parecia dar errado.
Já eram quase dois meses na Austrália. Em Narrabeen, o estresse e a saudade de casa tomaram conta. “Eu passei o campeonato inteiro sem dormir. Lembro que fechava o olho e ficava de olho fechado a noite inteira, mas não entrava no sono. Você não descansa.”
Sem raciocinar, apenas ia, e acabou fazendo semifinal. “Até hoje, não entendo. Até entendo porque a gente sabe competir, né? Usei muitas das estratégias, mas se me perguntar se eu tava bem pra fazer um terceiro, eu não tava. Foi meio que no automático, na experiência, fazendo as notas certas na hora certa.”
Dali Miguel retomou a tranquilidade que precisava pra continuar o ano e fazer os resultados que precisava para voltar ao CT. Já sentia o físico bem melhor, o pé funcionava bem de novo e a dor estava passando.
A partir do momento em que o corpo mudou, os resultados começaram a vir. Fez quartas em Huntington e em Ericeira. De novo, não sem emoção. Antes de embarcar para Portugal, uma pneumonia. Mais 15 dias sem surfar. Bruna Grano, sua fisioterapeuta, foi junto para continuar tratando o pulmão. Voltou a surfar dois dias antes do evento e entrava nas baterias sabendo que não podia pegar muita onda porque não tinha o gás necessário ainda. Na primeira bateria, pegou a primeira e a última onda. Certeiro. Um seis e um oito. Tudo que precisava para passar.
“Falei: ‘é isso, cara. Duas, três ondas, vai do jeito que dá, e pontuando nessa experiência de sempre pegar a onda certa, as minhas ondas boas. O Adriano (de Souza) na minha mente, falando bastante disso. E foi assim: mais um quinto.”
A essa altura Miguel já estava em terceiro ou quarto no ranking. Viu o irmão vencer a etapa, o Alejo (Muniz) ficar em terceiro, o Ed (Groggia) ficando bem. Começa ali uma felicidade geral, de todos indo bem, que contamina e deixa tudo mais leve.
Veio Saquarema, a última etapa, e de acordo com suas matemáticas, ele sabia que já estava praticamente garantido. Mas, como é o Miguel, o descanso só veio quando viu todos classificados.
“Aí, sim, eu pude relaxar.” Miguel nunca reclamou de cansaço. Mas quando 2024 terminou, ele só queria dar um tempo. “Fecha a capa de prancha, esquece, deixa de lado”.
Aquele Miguel voltou
Percebendo que em 2024 tinha feito uma pré-temporada muito longa, e depois de adicionar toda sorte de acontecimentos surreais durante o ano, Miguel quis ajustar a forma como começaria 2025.
Com a oportunidade na mão, reduziu a pré-temporada de três para um mês e, assim, não chegou exausto ao CT esse ano como fez no ano passado. Vem dando certo. Logo no primeiro evento, em Pipe, um quinto lugar, emendando outro quinto na piscina de Abu Dhabi.
Este é o primeiro ano com a companhia do técnico Adriano de Souza em 100% das viagens. O trabalho antes acontecia mais online, em conversas na sala de casa, nos momentos pré-evento. “Estar junto é diferente porque ele entende muito bem o que se passa na sua cabeça nos exatos momentos em que ele viveu tudo aquilo também, talvez mais intensamente do que eu vivi.”
É Mineiro que Miguel procura para conversar sobre motivação. Apesar de serem muito diferentes, é nestas conversas que encontra um norte sobre o que pensar nas horas certas. Quando Mineiro conta que pensava na casa que queria comprar, Miguel, que não se vê exatamente nesse momento, tenta entender o que pode ser a cenoura que persegue.
“Não é a grana que me leva lá, é o competir em si, é mostrar que eu sou bom. O que me faz realmente sair da cama é a competição, não é o dinheiro, não é o patrocínio, é estar naquele momento, precisando daquela nota.”
Ao descobrir que são esses momentos que o movem, Miguel talvez não só tenha reencontrado a fórmula – aquela, de 2022, como, com a ajuda de Adriano, tenha encontrado o Miguel de 2025. Aquele que tem sido frequentemente apontado como capitão.
E aí eu pergunto: em um esporte individual, faz sentido a figura de um capitão?
Quando o tempo que se passa longe de casa é tão longo que fica fácil considerar seus competidores uma família, talvez faça sentido.
De certa forma, Miguel é o ponto onde muitos surfistas brasileiros do tour encontram um ponto de segurança emocional. Não só porque é um dos mais velhos, mas porque as relações ali existem desde que eram crianças. Um exemplo? Foi Miguel que levou Gabriel Medina pela primeira vez ao Hawaii. “Foi responsabilidade minha. Eu saí de casa, uma criança levando outra criança”, lembra. Não por acaso Gabriel sempre o viu como um irmão mais velho. Filipe Toledo também tem o respeito de quem quer ouvir quem está há mais tempo por ali.
Para Miguel, essa leitura que as pessoas têm feito de capitão é recebida como sinal de que sua figura passa confiança, de que alguém que é justo para estar nessa posição.
“É algo que se conquista e eu fico feliz de passar a imagem de uma pessoa confiável e justa. Se alguém um dia perguntar minha opinião, não vou pensar só em mim, mas em todo mundo. Eles enxergam que quando eu torço por eles é algo genuíno.” Histórias de quando brincavam de contar caminhão na estrada, de futebol no corredor, de quando as festas de aniversário tinham salgadinho contado, e não shows promovidos por marcas. Acha natural também herdar um pouco isso do próprio Adriano, com quem a parceria veio de uma amizade construída lá atrás com base na admiração.
A verdade é que o respeito vem de muito tempo. Sempre foi cotado como representante dos atletas, depois dos brasileiros. Até como representante do surf na comissão dos atletas do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
“Tenho muito pra entregar ainda com a lycra. Talvez assim que eu me sentir satisfeito com tudo o que eu fiz como atleta, aí sim vou entrar de cabeça nessas posições e começar a ser mais ativo politicamente.”
daqui pra frente
O ano 2025 começou bem, as coisas estão fluindo.
“Ainda bem que, naqueles momentos que parecia que não ia dar, eu continuei acreditando. Agora a confiança tá lá em cima, surfando de lycra vermelha, algo que eu sempre sonhei, ser top seed, estar entre os 10.”
Voltou ao rumo que estava em 2023. “Surf todo mundo no CT tem. É muito mais a cabeça, é tomar as decisões certas na hora certa, e um pouco de sorte também.”
Tem que ter, e esse ano ele acha que a sorte tem lhe sorrido várias vezes, como na bateria com Italo Ferreira em Pipe. O mar estava meio acordando naquele dia, e assim que pisaram na água, as ondas vieram com vontade.
É neste tipo de bateria que Miguel quer estar.
“Eu vejo isso como sorte também. Apesar de eu ter perdido a bateria, o mar sorriu pra gente. Ele sente, né, e fala: esses aí tão querendo, então, vou mandar um monte de onda.”
“São essas batalhas que eu quero. Estar brigando com quem tá lá em cima, porque é assim que a gente aprende.”
Hoje, se vê exatamente onde queria. Construiu a imagem de um cara sólido. Foi numa bateria contra Seth Moniz que percebeu isso. O havaiano começou a surfar no tudo ou nada porque sabia que se cometesse algum erro, Miguel venceria.
E assim tem sido desde então. “Conquistei durante o ano esse respeito, de ser mais temido do que eu era, talvez, nos outros 10 anos. O pessoal falava: ‘o Miguel é bom, é perigoso, mas ele sempre dá uns moles’. Hoje, não.”
Mais uma influência do Adriano. Se der mole, o cara vai ganhar. “Tenho vencido as baterias sempre por pouco. É bem parecido com o que o Adriano fazia na época. O cara somava 13, ele somava 13,20.” E é isso que eles vêm fazendo. Agora quer, obviamente, superar 2022, quando esteve a 80 pontos do Finals.
Levou um QS 1000 na piscina, e ver que podia vencer um evento no mesmo ano em que se lesionou entregou de volta a garra que o fez se entender novamente como um competidor.
Se naquele 14 de março de 2023 lhe contassem a posição em que estaria hoje, ele não acreditaria. Talvez por ter se visto subindo a ladeira e despencando em seguida. Talvez por ser um ano pré-olímpico. Talvez por ter se sentido um pouco sozinho.
Talvez por ter visto o que já parecia grave ser ainda mais grave do que imaginava. Talvez por ter entrado numa cirurgia para fazer um ligamento e ter saído com uma reconstrução completa do tornozelo.
Talvez por ter perdido a sensibilidade. Talvez por ter se sentido assustado.
Mas como o Miguel é o Miguel, há sempre um lado bom. Além de não ter se visto um minuto sequer desamparado por patrocinadores, viver mais tempo em casa com as mulheres da sua vida segurou tanto sua onda quanto os braços dele agora seguram Lia, que acaba de acordar do soninho. Tranquila, no colo de quem agora conhece seu próprio talento e seu próprio caminho.
Publicado originalmente na edição impressa nº 03 da Revista Flamboiar, Inverno/2025.
Para saber mais, clique aqui
Miguel começou a temporada 2026 do CT com a vitória da tradicional etapa de Bells Beach. Com isso, hoje está no topo do ranking mundial e veste a lycra amarela pela primeira vez na carreira.
Nesta quinta-feira, 16 de abril, começa a segunda etapa, em Margareth River. Assista ao vivo nos canais da WSL.