Pedindo Água

Pedindo Água

Talvez não resista a mais uma queda. Das três quilhas com as quais foi concebida, apenas uma ainda agarra-se precariamente ao local de origem. O bico, reduzido a nada, bem poderia ser confundido com um square. E apenas uma ponta do swallow sinaliza a existência da rabeta. No deck, bolhas repletas de areia reforçam a proximidade do fim. O logotipo, provavelmente lixado nas últimas tentativas de reparo, não dá nenhuma pista da origem. Não há vestígios de parafina nem deck. Caminha extasiada debaixo do braço de um turista que a encontrou esquecida na área de serviço da casa alugada. O resto será um breve passeio pelas marolas do inside, sentindo a brisa e o salgado tão familiar da água. Depois, a volta resignada ao esquecimento da área e o silêncio absurdo que encerra o que já se foi.

Cristina Pereira
Cristina Pereira

Cristina Pereira vive em meio ao pó de poliuretano e às palavras desde sempre. Foi repórter, colunista e revisora de revistas de surf por um longo tempo, e surf repórter pioneira. Fala constante e ininterruptamente e faz das palavras seu meio e filosofia de vida.