Ode ao prego

Ode ao prego

14 de abril de 2016

Não ao prego arrogante, que não é corajoso, porque desconhecedor do perigo, invoca situações que fogem ao controle. Não ao prego que rabeia impunemente a onda alheia, desavisado das implícitas leis aquáticas da boa e segura convivência. Não ao prego pretensioso que apregoa façanhas mirabolantes. Mas ao prego assumido, que escolhe as menores da série, no pico menos concorrido, longe dos prós. Ao prego que vibra mesmo quando desequilibrado consegue manter-se na prancha por alguns segundos (milésimos?) e descortina onda a onda, queda a queda a possibilidade infinita que o surf traz para a alma, tornando-se um surfista. Daí, se o drop terá 30 pés ou meio metrão será apenas e tão somente questão de escolha e não uma exigência da plateia.

P.S: Aos pseudo prós que entram no mar e ficam medindo a performance dos pregos e aos pregos que deixam de surfar porque se preocupam com o julgamento dos pseudo prós. E principalmente a todos que entram no mar dispostos a se divertir e estão cagando pra tudo isso.


Cristina Pereira vive em meio ao pó de poliuretano e às palavras desde sempre. Foi repórter, colunista e revisora de revistas de surf por um longo tempo, e surf repórter pioneira. Fala constante e ininterruptamente e faz das palavras seu meio e filosofia de vida.