Um guia para lidar com peitos na hora de surfar

Um guia para lidar com peitos na hora de surfar

Até que chegue o dia em que nós, humanos, tenhamos maturidade suficiente para adotar o surf topless, precisaremos discutir assuntos tão triviais quanto como lidar com a presença de peitos no surf. Se até amamentar em público ainda é tabu, dá pra ter ideia do quanto esse dia está longe.

Muitas vezes, verdadeiras estratégias são montadas. Amarra de um lado, aperta de outro, top por baixo, maiô por cima, camiseta e três ave-marias… Em outras a dona dos peitos está bem próxima da libertação. Mas uma coisa é fato: a busca pela forma mais segura e confortável de acomodar os melões na cesta faz parte da realidade surfística de todas as mulheres de uma forma tão naturalizada que a ideia de falar sobre o assunto é surpresa pra maioria.

E cá estamos pra compartilhar artimanhas, facilitar nossas vidas e acender nossos faróis sem medo num ambiente tão instável quanto o mar e de predominância ainda tão masculina quanto o surf.

Renata Porcaro, longboarder

Se tem uma verdade absoluta que apuramos nesta investigação junto a surfistas dos mais variados tamanhos de bojo, é esta: MAIÔ É VIDA. “Muito mais fácil… você não se preocupa nem com o peito e nem com a bunda”, atesta a longboarder Renata Porcaro, que surfou de biquíni boa parte da vida, mas descobriu a redenção a tempo. “A primeira vez que eu surfei de maiô, a vida mudou. Independente do tamanho do mar, eu me sinto mais à vontade e consigo me concentrar mais na manobra.”

Manobra… ah, sim… a manobra. Se alguém aqui achou que o problema é um singelo pânico de pagar peitinho, é legal frisar que esta não integra a lista de grandes preocupações da maioria de nós. Ainda que se descobrir zarolha no biquíni não seja a melhor das sensações, não chega a ser nenhuma desgraça. Problema mesmo é a distração que os panos desordenados podem provocar durante aqueles segundos sagrados que se passam entre o drop e a queda.

Gabriella Cardoso, tandem surfer

A Gabriella Cardoso, por exemplo, tem nas manobras do Tandem Surf os momentos de exposição mais intensa. No surf a dois é tanta coisa junto além do mar e da prancha, que uma cortininha abrindo na hora errada pode colocar toda concentração e equilíbrio literalmente por água abaixo. Com ela rolou uma memorável… “GoPro no bico fazendo imagens pra uma série do Canal OFF, bateu a água, lavou geral, o biquíni foi levado e eu oooooopa!!!” Essa manobra ela não passou pra produtora, não. “A gente precisa estar à vontade no mar, não dá pra se preocupar com o que não precisa”, disse a Gabi. E adivinha? Ela gosta de maiô porque é uma coisa só. Não fica aquela nóia de blusa subiu, biquíni desceu. Ou biquínis mais fechados, daqueles retos próximo ao pescoço, também a tranquilizam por realmente firmarem o peito.

A glasser Diana Nunes nunca entendeu como alguém consegue surfar de biquíni cortininha: “Como é que faz? Passa cola?” Para a Gabriela Paladino, que trabalha na FuWax e surfa de long, usar biquininho sem ver nada sair do lugar é uma utopia.

Diana Nunes, glasser

“Talvez seja um problema mais de quem tem muito peito”, cogitou a Diana. E realmente, talvez quem veste tamanhos maiores esteja suscetível a encarar uma dança mais frenética dos mamilos, mas talvez também esteja mais descolada pra lidar com tudo isso. “Micos eu devo ter vários, acontecem direto. Já ri muito comigo mesma nessas situações. Mas é algo que aceitei e faz parte, quando acontece é só ajeitar e pronto. Não vale a pena sentir vergonha. O mar já exige muita atenção e, dos males, esse é o menor”, disse a Maria Julia Person Argollo, que encontra no mar o lugar onde mais consegue aceitar seu corpo como ele é. “Muitas partes do meu corpo são voluptuosas. Quando comecei a surfar, eu fiz um pacto comigo mesma de não ficar constrangida com meu corpo nesse momento”, contou. Ela procura usar biquínis/maiôs/roupas que a façam sentir segura, como cintura alta, tops, roupas firmes. “Não porque cubram algo, e sim visando o conforto pra que eu possa voltar toda minha consciência pras ondas, pra remada, pro drop, pro que está ao meu redor”, contou.

A Agnes Aguiar, da Alma Quilhas, também não se preocupa, ainda que seja uma constante enfrentar olhares na praia e ter que se impor pra não virar uma bóia no mar só por ser mulher. Por surfar de long, ela conta que está sempre em busca de marolas perfeitas, mas a realidade na Região dos Lagos, onde ela mora, é mais inconstante do que gostaria. Assim, quando vem um baita swell depois de um longo período flat, não pensa duas vezes e se joga. “De maiô, com um top ou com uma camiseta por cima. Sair, vai sair… você leva uma vaca, ele vai escapar. Quem tem peitão sabe disso… Mas aí eu tô ali confortável, de john, com uma camisa por cima, com maiô que segura legal”.

Gabriela Paladino, designer

O grande problema, pra ela, está menos na hidrodinâmica e mais no atrito. Como estratégia de surf, a Agnes usa muito o movimento de pesar o peito na prancha pra ajudar a entrar na onda, e às vezes chega a ficar com cicatrizes no colo por assaduras causadas pela parafina. O que, pensando bem agora, me leva a crer que talvez o surf topless seja uma péssima ideia. (risos nervosos).

Outro incômodo inevitável é a dor causada pelo impacto. “Dói quando você vai varar a arrebentação… Bate muito aqui no peito. Tipo defender uma bola no peito… Pááá! Só que as vezes é muito forte”, lembrou a Gabi Paladino.

 

Testes, reforços e dois mamilos fumegantes

Pra entender como a realidade torácica das fêmeas surfistas influencia na criação e produção das roupas para surfar, conversamos com algumas marcas nascidas com a ideia de suprir a lacuna deixada pelos filmes de surf dos anos 90, quando peitos eram apenas imagens-acessório usadas no corte entre uma onda e outra dos surfistões.

Agora que a presença das mulheres na água evoluiu ao status de pseudo-aceitação coletiva, o mercado começa a se desenvolver com o surgimento de marcas feitas por quem sentiu a necessidade na pele.

“A By The Sea nasceu porque eu não achava roupa confortável e bonita pra surfar”, contou a criadora da marca Cintya Misobuchi. Com avó costureira, tio-avô alfaiate e mãe fazendo fantasias para os filhos, a moda está no sangue. Ela comprou umas lycras, fez umas peças pra uso próprio e, da primeira amiga que também quis até a criação da marca, foi um movimento natural.

Como ela surfa, na hora de criar já pensa nas necessidades que sente. Por isso, os modelos específicos de surf e esporte geralmente têm uma cara mais de top, com lycras e elásticos mais firmes na base para não ficar subindo e alças mais largas ou mais firmes.

A motivação de existência da Langai passa pela mesma condição. A Luiza Coutinho surfa há cinco anos e conta que suas duas grandes razões para criar a Langai foram a urgência de roupas confortáveis pra surfar e a necessidade de uma marca que a representasse em um meio onde os homens são maioria. Por isso, ela diz que “manter tudo no lugar” é considerado 100% na hora da criação de uma peça para surfar ou praticar outros esportes.

Como qualquer equipamento, também para as roupas os testes são fundamentais. Na By The Sea, eles são feitos em mares maiores por surfistas mais experientes e por parceiras e clientes que estão aprendendo. A produção só é liberada depois de assegurar que a peça segura um caldo maior. Na Langai, a Luiza conta que a cada coleção são feitas melhorias nas modelagens de acordo com os feedbacks da coleção anterior.

A surfista Renata Porcaro é parceira de teste da Sicrupt, marca que a apoia como atleta há seis anos, desde o primeiro maiô. E pra ela, os melhores modelos são os de manga comprida com luvinha pra proteger do sol e com zíper na frente pela praticidade ao vestir.

O maiô, aliás, é unanimidade até pra quem produz. “Quando comecei a surfar de maiô, minha vida mudou. Como não tinha mais a preocupação de ficar arrumando nada ou medo de ficar pelada, o foco foi 100% para o surf”, indica a Cintya da By The Sea, principalmente para quem está iniciando. Ela garante que já não tem essa preocupação nem quando usa os biquínis mais firmes. “Aí a puxadinha vira mais uma coisa estética e de mania do que uma necessidade real”.

A Luiza diz que seu objetivo é criar o tal modelo que não precise nem dar uma puxadinha, mas fica se perguntando: será que é possível? “Acho que a minha maior dificuldade seria criar esse mesmo modelo para um Brasil inteiro de mulheres com formas e curvas bem diferentes”, responde. Diante disso, a única coisa que lhe vem à cabeça é uma roupa sob medida, o que traria como consequência um tempo maior de desenvolvimento e um custo mais alto de produção em uma cadeia produtiva já bastante complexa.

Isso traz à tona outro problema que nem as marcas menores, que em geral são mais conectadas com as necessidades das clientes, conseguiram resolver ainda: o padrão estabelecido de tamanhos. Ainda que muitas marcas estejam trazendo a pauta do surf feminino mais democrático, poucas refletem isso na grade. “Você não precisa ser linda, magra, loura e estar no padrão do marketing do surf pra estar nesse universo. A surfista brasileira não é mais aquele PPP, e quando você vai comprar roupa de surf, o G é um P”, reclama Agnes. “Eu tenho 1,80 m, meu busto é 48, eu sou consumidora. Eu não quero ir surfar com qualquer roupa. Não quero ir surfar com um maiô de natação escroto, horrível, que me tape inteira. Eu quero estar bonita no mar”.

A By The Sea, por exemplo, trabalha com o tamanho GG, que atenderia até um 46 ou 48, segundo a Cintya. Mas ela explica que somente duas a três peças são produzidas por coleção porque a procura é menor, assim como o tamanho PP, e a ideia é evitar muitas peças paradas no estoque. Assim, também pode ser feito sob encomenda. “Temos percebido um aumento na demanda por GG maior do que a demanda de PP, por isso, a cada coleção temos aumentado aos poucos o número de peças GG”, conta. Mas até hoje, ela ainda não teve procura para tamanhos acima do 50, por exemplo. “É uma questão de demanda mesmo, se começar a ter procura, começaremos a desenvolver modelagem e tudo mais”, diz.

Na Langai, produzir tamanhos maiores e menores é uma intenção presente. Hoje, o que impede de sair fazendo é a estrutura de produção. “Basicamente a nossa mesa de corte é pequena e teríamos que alinhar toda a organização do tempo e custo da produção, além do desenvolvimento dessas modelagens. Parece besteira, mas como somos uma empresa pequena ainda é um grande empecilho”, explica Luiza.

 

Manual de instrução para machos

Você é homem e precisa de ajuda pra lidar com peitos no surf? Aqui temos um guia das melhores práticas:

1. Ao se deparar com peitos no outside, não haja como se nunca tivesse visto um par deles na sua vida. Isso vai causar desconforto à mulher acoplada e, das duas uma: ou você será percebido como um moleque mal amamentado ou como um sujeito tarado. Se não for pelo (altamente recomendado) respeito a ela, apenas se poupe do papel de ridículo mesmo.
2. Agora, pode acontecer mesmo de você nunca ter visto peitos de perto antes, certo? Se for esse o seu caso, procure manter a calma e agir com naturalidade. Se ainda assim você não conseguir disfarçar totalmente essa emoção púbere, mas ficar quietinho, você está perdoado. Provavelmente ela vai sacar seu nervosismo e achar até fofinho.
3. Se, tendo intimidade com peitos em geral ou não, você perceber que um deles está livre, ainda que acidentalmente, da opressão do biquíni, não olhe… Em hipótese alguma fique olhando sem falar nada. Mas falar talvez não seja o ideal também – depende muito do grau de proximidade que vocês têm ou do grau de delicadeza com que você consegue dar notícias embaraçosas. Então, na dúvida, apenas NÃO OLHE se não tiver certeza de que ela está de fato te mostrando!!! Se você pode ter seu mamilo livre por aí sem ninguém sequer perceber, ela também pode. Quando ela se ligar, segundos, minutos ou horas depois, vai ficar na dúvida se alguém viu, e tá tudo beleza. Então, recapitulando para nunca mais esquecer: NÃO OLHE sem ser chamado! NÃÃÃÃO OLHE, ENTENDEU?
4. Até hoje, que se saiba, peitos nunca foram usados oficialmente como critério de julgamento nas baterias. Portanto, não julgue previamente ou desqualifique o surf de alguém somente pela presença de peitos na história.
5. Se nem assim você conseguir lidar com peitos no surf, procure saber: seres surfísticos com peitos, peitinhos e peitões existem desde o início dos tempos e, cedo ou tarde, você vai ter que aprender. Toma tino, rapá… RESPEITA AS MINA!

Carolina Bridi
Carolina Bridi

Carolina Bridi é jornalista, videomaker e criadora da Flamboiar. Perseguindo histórias, foi ficando cada vez mais próxima da praia até ter sua história mesclada com as aventuras que conta. Adora longboards, glass pigmentado, acredita em surf divertido, na ressurreição do impresso e apoia veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono. Instagram: @carobridi