BIQUILHAPOLARIDADE

BIQUILHAPOLARIDADE

Quantas vezes você já se imaginou com os pelos do braço brancos, cobertos por uma crosta formada pelo pó de poliuretano? Quantas vezes você já repetiu mentalmente o movimento de vai e volta da plaina sobre o bloco de onde você, com suas próprias mãos, descobriria aquela bela forma flutuante capaz de te fazer viajar do mar até a lua? Quantas vezes você já desejou secretamente instalar lâmpadas fluorescentes a meia altura em um canto meio esquecido da casa e posicionar ali cavaletes, ou transformar o corredor de casa em uma espécie de sala de shape itinerante?

Desde os primórdios do surf, criar a própria prancha, pelo menos uma vez na vida, habita o imaginário de quem pega onda. No primeiro episódio da série Do Pó à Praia, Junior Faria lançou ao mundo aquático o modelo carinhosamente batizado de Barracuda Meia-lua Birolha.

Clique aqui e vá direto para o vídeo ou seja legal, continue lendo a matéria e assista ao vídeo no final De um lado, o bloco de poliuretano intocado. Do outro, a biquilha Mark Richards que inspirou a Barracuda.

De um lado, o bloco de poliuretano intocado. Do outro, a biquilha Mark Richards que inspirou a Barracuda.

 

O menino e suas pranchas

Esta não foi a primeira vez que o surfista e jornalista meteu a mão no bloco aspirando arrancar dele um formato surfável. Mas foi a primeira vez que fez isso sozinho.

“Já shapeei uma prancha. Não ficou boa, mas foi legal.”

Essa frase define bem toda a bipolaridade que marcou o processo de produção da Barracuda. Analisando a fundo a psicologia surfística, pôde-se perceber que, a cada etapa da produção, aumentava a desordem dos sentimentos experimentados pelo surfista – um misto de ansiedade, euforia, orgulho e receio daquilo que estava trazendo à vida.

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Junior sempre procurou ter a relação mais próxima possível com pranchas. Por isso, ele sabia muito bem que a tarefa seria difícil. “Tenho a maior admiração do mundo por quem faz isso bem porque é super complicado. Além de entender várias partes técnicas do projeto, você tem que ter uma baita habilidade com as mãos pra usar a plaina e as ferramentas da forma certa.”

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O surfista e a plaina

Uma coisa é você ver mil vezes como o cara faz prancha, disse o Junior durante o processo. Outra coisa é você pegar a máquina, passar no bloco e ver o que consegue tirar dali.

Quando chegou, carregava faceiro sua biquilha Mark Richards – aquela que serviria de base para a Barracuda. Teve a precavida ideia de tentar fazer uma biquilha entre 5’8″ e 5’9″, pequena, bem grossa, pra poder errar bastante.

“Quero uma prancha pequena, divertida, que seja fácil de remar, fácil de entrar na onda. Nada muito de performance porque tenho certeza que não vou conseguir fazer”, disse, enquanto media, marcava, coçava as ideias e recortava o que viria a ser o molde da aguardada criatura.

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Desse momento até a última lixada, foram idas e vindas, altos e baixos, picos e baixas, dúvidas e certezas.

“Foi muito, muito difícil. Em muitos momentos eu me perdi totalmente. Cara, o que eu to fazendo? Que linha eu tenho que seguir? Onde eu tenho que colocar a lixa, a plaina?”

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Junior é um cara que procura se envolver no surf de uma forma completa, por isso, já tinha alguma ideia do que estava se propondo a fazer. Mas na hora da prática, a vida acontece em 3D. “Por mais que você ache que entende um pouquinho de como é feita e dos conceitos que estão colocados ali na prancha, na hora de fazer mesmo, é outro jogo. É completamente diferente, você começa a enxergar outras coisas”.

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Mais difícil foi conseguir fazer as máquinas funcionarem a seu favor. A mão simplesmente não obedecia aquilo que as ideias arquitetavam. “Você até enxerga o que quer, sabe o que tem que fazer no bloco, mas não tem habilidade suficiente pra máquina ou a lixa fazerem o que você está imaginando. Na cabeça, o negócio é bem claro, mas quando você vai colocar a mão no bloco, fica tudo errado.”

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porque ficou parecendo um peixe, uma barracuda; porque ele tentou fazer o swallow, mas conseguiu um híbrido com uma coisa mais meia-lua; e porque ela é assimétrica – é birolha – um lado de um jeito, outro lado de outro.

Saiu uma 5’9″ com 20 ½ de largura e 2 ¾ de espessura. Uma prancha com muito mais volume do que o esperado. “Acho que se eu tirasse mais, ia acabar me perdendo e ficar pior”, justificou.

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“Uma prancha bem grossa, larga, bastante volume, mas acho que vai ser divertida de surfar. Com certeza ela vai andar. Tem um monte de espuma aí. Acho que vai ser uma prancha divertida. Tá estranha, né? É assimétrica. Você começa a olhar e pensa: nossa, quanto defeito. Um monte de coisa que já nem adianta tentar consertar porque sei que vai piorar. Então deixa do jeito que está. Mas, putz, tá irada! Tá feia a bichinha, mas acho que vai andar.”

Percebeu? Ao final do processo, a biquilhapolaridade atingiu níveis psicodélicos. Junior oscilava entre o amor e a vergonha. Talvez, uma hipótese a ser considerada nos estudos da psicologia surfística de casos futuros seja a bipolaridade pós-shape como variante amena da depressão pós-parto.

A Barracuda Meia-lua Birolha prestes a partir pra primeira queda.

A Barracuda Meia-lua Birolha prestes a partir para a primeira queda

 

Os primeiros drops

Para limpar a poeira e experimentar a cria, veio a primeira queda. Junior entrou no mar esperando, sinceramente, que sua Barracuda pudesse oferecer uma única coisa: velocidade. Ele disse não ter feito nada para que isso acontecesse, só procurou, o máximo possível, não estragar o bloco. Não foram poucas as vezes que ele decidiu deixar de tentar fazer algo mais elaborado para garantir que não estragaria o que já estava feito. “Mas, enfim, apesar de estar assim, espero que ela tenha velocidade. O resto eu me viro. O que não dá é prancha que não anda”, disse, antes da clássica corrida rumo ao mar.

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Quem viu de fora, achou divertido. Mas quando saiu da água, Junior atestou: surfar com a prancha foi difícil, em primeiro lugar. “Não é a melhor prancha do mundo, mas foi interessante pra caramba surfar com ela”. Por ser uma prancha bem grossa, é difícil cravar a borda em alguns momentos, ou seja, é uma prancha que se mantém bastante sobre a água. Pela espessura combinada com as duas quilhas, acabou derrapando bastante. Isso pode ser ruim em alguns momentos, mas legal em outros. Quando não se tem muito o que fazer na onda, por exemplo, é fácil dar um 360º com ela.

“A minha expectativa era zero, até porque eu sei de todas as cagadas que eu fiz na prancha. Mas, de certa forma, superou minhas expectativas porque, pelo menos, eu consigo fazer alguma coisa com ela. Num mar pequeno e sem muita força, até que vai bem. É uma prancha ruim, mas é divertida”.

E foi embora, tentando lidar com toda a saudável bipolaridade que só uma experiência como essa pode oferecer.

 

 

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